Kidbug
Crítica, Música

O disco de estreia da Kidbug é um bálsamo para esses dias esquisitos…

Kevin Shields e Tanya Donnelly entram em um bar, bebem um cerveja e decidem fazer um disco juntos… É assim que tenho definido o disco homônimo do Kidbug: as texturas de guitarras, as microfonias, aquela melodia característica de algum ponto perdido entre o fim dos anos 1980 e a metade dos anos 1990 estão lá expostas neste disco.

Capa do disco de estreia do Kidbug

O núcleo da Kidbug é formada por Marina Tadic (da Eerie Wanda) e Adam Harding (da Dumb Numbers) e, ainda, por Thor Harris (Swans) e Bobb Bruno (do Best Coast).

Tadic e Harding se conheceram no final de 2018, como explicam na página da banda no Bandcamp, e passaram a trocar cartas de amor e descobrir as afinidades musicais de cada um.

Não é por acaso que fiz a brincadeira lá em cima com dois nomes que considero importantes no cenário indie/alternativo dos anos 1990: a Kidbug passeia com maestria no território de bandas como My Bloody Valentine, The Jesus and Mary Chain, Pixies, Belly, Sonic Youth, dentre outras.

Canções como Lovesick, Never e Woozy caberiam confortávelmente no repertório de quaisquer desses grupos e é justamente a qualidade das canções, das texturas de guitarras e a voz de Tadic que carimbam este álbum de estréia.

O disco, por sua vez, é fruto de um ano esquisito marcado pela pandemia de Covid-19 e pelo distanciamento. Lançado em maio de 2020, o disco detém uma atmosfera tensionada, intimista, confinada diria, que reflete muito desses dias.

Há dois pontos que chamam a atenção nesse álbum de estréia: a voz de Tadic e o trabalho de guitarras que ela e Harding imprimem às canções da banda.

A voz de Marina Tadic remete a algo que se equilibra entre Tanya Donnelly, do Throwing Muses/Belly, e a “eterealidade” de uma Elizabeth Fraser, do Cocteau Twins.

Já as guitarras de Harding e Tadic passeiam pela paisagem sonora com que eles se dizem familiarizados e, talvez por isso, a pegada da banda se finque em microfonias e harmonias que seriam muito bem abrigados em discos como o “Isn’t Anything”, do My Bloody Valentine ou em um “King” do Belly – e aqui a cozinha composta pela bateria de Thor Harris e o baixo de Bobb Bruno levam tudo a um acerto impecável.

Confesso que havia muito não escutava um disco que me chamasse a atenção como esse do Kidbug… Me senti transportado a um tempo e atmosfera que me lembraram como a música pode ser um refúgio para dias como esse.

Parabens aos caras: que belo disco de estreia…

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Artigos, Música

Afinal, o Vinil voltou para ficar!? Não, não voltou: ele sempre esteve aí e, pasmem, fingiu perfeitamente a própria morte…

Há algo que tem feito esta pandemia de Covid-19 um pouco menos desgastante neste interminável 2020: a coleção de discos de vinis que somente cresceu ao longo dela. Cresceu exponencialmente e atravessando os mais diversos gêneros: Jazz, Pop, MPB, Clássico, Rock’n’Roll… Se tem algo que posso me vangloriar é a diversidade dos meus discos, uma vez que ele atravessa todos os gêneros musicais que gosto.

Mas nunca fui um colecionador de discos de vinil, diga-se: isso é algo bastante recente. Antes dos “bolachões”, colecionava as “bolachinhas plásticas e brilhantes”: minha coleção de Compact Discs era, até pouco, a “menina dos olhos” aqui de casa. O primeiro CD que comprei, o “Document” do R.E.M., estava na minha coleção desde o distante ano de 1991 – ano em que comprei meu primeiro tocador de Compact Discs.

De lá até a segunda metade de 2020, a coleção de CDs já continha algo em torno de 1.000 discos que eram cuidados com toda a atenção e cuidado…

Mas em meados de 2016, enquanto circulava pelo Sebo Cata-Livros, um dos mais longevos aqui em Natal/RN e que é comandando pelos amigos Jácio e Vera, dei de cara com um toca-discos usado que eles tinham à disposição por lá. Era um Belt Drive da Kenwood que me fisgou de imediato: comprei o toca-discos, levei para casa e, a partir dali, passei a adquirir discos de vinil com alguma regularidade.

E aqui, antes de prosseguirmos, cabe uma explicação…

Em geral, os toca-discos estão divididos basicamente em dois padrões: Belt Drive e Direct Drive. Os toca-discos Belt Drive são aqueles que têm o “prato” onde o disco de vinil é colocado ligado ao motor através de um sistema de roldanas de borracha. Já os Direct Drive são aqueles toca-discos em que “prato” e motor integram o mesmo elemento. Há fãs para os dois sistemas, mas gosto dos dois – mesmo que atualmente tenha em casa um Technics Direct Drive.

Muito se falou sobre o fim dos discos de vinil com a chegada do Compact Disc entre as décadas de 1980 e 1990, mas, também, sobre o fim das mídias físicas com a expansão do Streaming a partir dos anos 2010, mas o que ocorreu foi a expansão dos discos de vinil em uma escala que, recentemente, superou a dos CDs – primeira inovação que se apresentava como um dos fins para o vinil.

Mas o que motiva afinal esse retorno dos discos de vinil? Para muitos, pura nostalgia: velhos entusiastas do formato estariam investindo nessa mídia e, com isso, estimulando tal retorno.

O único porém que tal raciocínio encontra, no entanto, diz respeito ao público: uma pesquisa recente apontou que cerca de 57% dos consumidores de vinis encontra-se na faixa entre 15 e 25 anos de idade e outra parcela significativa entre 25 e 35 anos, enquanto outros cerca de 25% dos consumidores de discos de vinil está entre os 35 e 35 anos.

Creio que o que motiva boa parte desses consumidores de discos de vinil tem a ver com algo que defino como complementaridade da experimentação: o vinil exige uma maior imersão no processo de ouvir música e não está resumido a apenas um sentido, mas aos mais variados.

Ouvir a um disco de vinil implica não apenas a escuto, mas, sobretudo, o estímulo às componentes visuais, táteis e, porque não, olfativas até desse mídia. Por isso creio que a experiência de ouvir um disco de vinil seja algo mais amplo, complexo e complementar que ouvir uma canção em um serviço de streaming.

A persistência dos discos de vinil é um indicativo de que a lógica de uma “sobreposição das mídias” é tão somente simplista, não dando conta das diferentes dinâmicas que podem envolver à longevidade de uma tecnologia ao longo do tempo – especialmente se considerarmos como diferentes sujeitos interagem e consomem essa mesma tecnologia.

Quando um geração que cresceu com o digital do streaming e adota um suporte calcado no analógico como os discos de vinil vemos não apenas a perspectiva de uma complementaridade entre mídias, mas a persistência de uma delas em relação aos que imaginavam-na superada – como outras recentes, bastando pensar em tecnologias como os Laser-Discs, o VHS ou mesmo as fitas K7.

Voltar aos discos de vinil me leva a constatar que uma mídia depende, sobretudo, do desejo de seus entusiastas por experimentar os limites de uma mídia. Longa vida aos bolachões, meus amigos!

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Esquadrinhando

Vocês deveriam ler “Os X-Men” de Jonathan Hickman, amiguinhos…

Comecei a ler os X-Men muito cedo e, sem medo de errar, sempre foram os personagens da Marvel Comics que melhor capturavam minha atenção. A criação de Stan Lee e Jack Kirby representa aquela síntese que mescla rejeição, superação, senso de comunidade e de luta contra injustiças: prato cheio para crianças/adolescentes em busca de um lugar.

Encontrei o meu com os Fabulosos X-Men que vinham nas páginas da revista Superaventuras Marvel da Editora Abril lá nos anos 1980: “Só dói quando ele ri” aparecia na edição 14 e era a primeira aventura de um arco escrito por Chris Claremont e ilustrado por John Byrne narrando a luta dos personagens contra o vilão Arcade.

Edição de X-Men #1 de Jonathan Hickman pela Panini Comics.

E por que falar de um grupo tradicional de personagens que, ao longo dos anos, passou por tantas mudanças, idas e vindas – com personagens morrendo, ressucitando, morrendo novamente, ressucitando novamente, sendo perseguidos, alguns exterminados, ressurgindo novamente, tudo em uma espiral contínua de transformações!?

Sou suspeito, mas creio que a nova fase dos X-Men escrita por Jonathan Hickman – responsável por uma reformulação memorável no Quarteto Fantástico em que promoveu um importante redesenho na mitologia da “primeira família” da Marvel – é de longe uma das mais profundas transformações já sofridas pelos personagens (algo ainda mais elaborado que a passagem de Grant Morrison lá na primeira metade dos anos 2000).

Hickman transforma os X-Men em uma força política: os personagens não são mais párias superpoderosos fantasiados que resistem ao preconceito e ódio, mas se tornam uma nação autônoma que se apresenta ao planeta estabelecendo seu lugar e conclamando iguais a compartilharem destes mesmo espaço: heróis ou vilões, todos os mutantes são bem-vindos nesta nova configuração estabelecida.

Para tanto, não há Genosha – destruída no arco inicial dos Novos X-Men de Grant Morrison por um grupo de Sentinelas descomunais e selvagens -, mas Krakoa: a ilha viva criada por Len Wein e Dave Cockrum e que fez sua primeira aparição em 1975 nas págins de Giant-Size X-Men #1 em que foram apresentados os Novos X-Men.

Entretanto, Krakoa não é apenas uma ilha, mas um ecossistema mutante que, na proposta de Hickman, se torna abrigo para uma nação autônoma e refúgio todos os mutantes do planeta.

Para tanto, Xavier, Magneto, Moira Moira McTaggert transformam a ilha em um espaço restrito aos mutantes: só aqueles que possuem genes mutantes têm permissão para acessar os diferentes portais que levam à Krakoa.

Mas Jonathan Hickman puxa outras idéias da cartola: como forma de barganhar sua autonomia e existência, os mutantes passam a oferecer as Flores de Krakoa como contrapartida a suas reivindicações.

São três drogas sintetizadas e que oferecem: a possibilidade prolongamento da vida em até cinco anos; um antibiótico universal adaptável; e um último remédio capaz de curar doenças mentais em seres humanos.

Os mutantes se transformam, na visão de Hickman, em um agente político especialmente importante para o cenário mundial. Além disso, Hickman lança mão de uma das mais interessantes construções em torno dos mutantes: o fantasma da morte não passa por Krakoa.

Depois de muito, Charles Xavier descobriu como copiar a mente de todos os mutantes e armazená-las em Krakoa. Além disso, com um grupo de mutantes específicos e que passaram a viver na ilha, tornou-se possível a produção de cópias exatas dos mutantes que eventualmente morrem e, quando ressucitados, Xavier “regrava” suas mentes.

A abordagem de Hickman é revolucionária porque apresenta os X-Men e toda sorte de personagens deste universo como finalmente donos de seus destinos e dispostos à resistência contra quaisquer ameaças.

Uma parte importante dessa resistência é a própria Moira McTaggert, ou Moira X, que, descobrimos na série, é mais que apenas uma brilhante cientista, mas uma mutante-chave para a ascensão deste novo cenário para os X-Men.

Os cinco primeiros volumes dessa saga escrita por Jonathan Rickman e ilustrada por Pepe Larraz estão disponíveis nas melhores bancas e livrarias. Eu, no seu lugar, leria essa que é desde já uma das fortes candidatas a melhor arco de aventuras dos X-Men.

A mudança proposta por Rickman é emblemática e reverberará durante muito nos personagens e não mexe apenas com a narrativa, mas acrescenta componentes como política, respeito às diferenças, autodeterminação dos povos, resistência e preservação ambiental.

Está tudo lá. Jonathan Rickman acerta ao utilizar os clássicos mutantes de Stan Lee e Kirby – que nasceram sob o signo da diferença e resistência – para discutir o presente e o futuro. E este arco é justo sobre como lidar com o futuro e fazê-lo acontecer…

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Ficção

We’re Waiting For The Man…

A gente o chamava de “Speedy”: era ligeiro, safo, um ás… Bastava acionar, que lá ia ele dar conta do recado: era o “emissário”, sempre a mil por hora e pronto para “resolver” geral… “Speedy” era demais: conhecia todas as quebradas de Natal, sabia quando estar e, também, tão importante quanto, quando não estar – especialmente quando as coisas davam merda.

“Speedy” era o nosso homem: aquele que esperávamos sem reclamar porque, sabíamos, ele sempre chegava chegando. Não importava a distância, havia uma força que o impulsionava: era cocaína. “Speedy” era alucinado por aquele “pó mágico”: que, vez ou outra, também buscava para nós. Não por acaso, “Speedy” quase sempre estava à toda – especialmente quando voltava.

Nós, uns moleques de classe média com alguma grana que a “mesada” nos garantia – por “mesada” entendam os assaltos às carteiras e bolsas de nossos pais – e ele era o cara certo para dar conta daquela “ponte” entre o que queríamos e o percurso até os fornecedores certos: “Speedy” conseguia “da soltinha” na seca – entendam, era quase mágico – e os melhores pontos para a “branquinha”, que era o apelido que a gente dava para você sabe o quê (e que não era cachaça, claro). Ele conseguia de tudo para nós – até as novidades: “doce”, hash, mescla…

– Ei, ei, boy: pense que essa tá primeira – costumava dizer, coçando o nariz e com aquela alegria que só quem “bate” uma é capaz de expressar com praticamente todos os músculos do corpo, mas que não revela que deu aquela grampeada marota na parada dos outros.

“Speedy” era foda. Batia os quatro cantos da cidade se quiséssemos resolver alguma bronca: ia e voltava numa boa, daí voltava e ia novamente só pra deixar tudo certo. Sabia também como não cair em ciladas e, se caísse, também como levantar e “se sair” rapidamente.

Daí o “Speedy” mudou. Desacelerou, reduziu, pisou no freio e, assim, como diz, se encontrou: virou pastor… Gonçalo era seu nome, afinal: ironia daquelas. Nunca mais o vimos correndo, virado. Casou, parou e, bem, dia desses caiu: encontrou a polícia e ela “mandou” uma para o lado da casa onde “Speedy” vivia.

Não pôde se sair, perdeu…

“Speedy” era foda, mas não era à prova de balas…

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Artigos

“By The Fire”, de Thurston Moore, expande a discografia do músico, mas abraça saudosistas do Sonic Youth

Bateu um saudosismo daqueles ao ouvir By The Fire, novo álbum do Thurston Moore. Para quem, como eu, seria capaz de passar dias escutando todos os discos do Sonic Youth, banda de Moore que encerrou suas atividades em 2011, este By The Fire é um bálsamo.

O disco traz nove canções que facilmente figurariam em algum disco do Sonic Youth: são canções que se enquadrariam nos limites de clássicos da banda, mas apresentam algo da evolução de Moore em seus voos solo – que, desde 1995, com Psychic Hearts, tem uma produção que rivaliza com os discos de sua antiga banda.

By The Fire também dialoga de certa forma com as direções de Moore em The Best Day, disco de 2014, que apresenta canções com riffs cristalinos e arrangos elaborados partindo das premissas de algumas das canções mais, digamos, “pegajosas” de sua ex-banda.

Canções como Hashish e Cantaloupe, por exemplo, logo na abertura do disco, denúnciam algo desse diálogo de Moore com a trajetória de sua antiga banda, mas demonstrando que o Sonic Youth é componente fundamental desta guinada: estão lá – e também por todo o disco – as estruturas que fazem deste um dos grandes álbuns de Moore e um dos achados deste ano perdido.

E o disco segue em um crescendo com faixas que seguem em um equilíbrio brilhante entre distorção, leveza e mais distorção. Breath e Caligraphy são duas das canções que melhor expressam esta dinâmica: Moore equilibra e “solta a mão” em camadas e mais camadas de guitarras – sendo They Believe In Love [When They Look At You] uma das que me pegaram de jeito por um metodismo de Moore em mesclar um riff que vai ao infinito e seu peculiar trato com as harmonias.

By The Fire é assim: lida com as diferentes camadas desse saudosismo que nos atravessa há quase uma década desde o fim do Sonic Youth, mas, ao mesmo tempo, demonstra que Thurston Moore segue em sua busca por experimentar e expandir seus horizontes com os pés fincados nas suas fundações.

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Artigos, Música

“Dias Raros” das Melenas é aquele disco que você deveria estar escutando desde ontem…

Olha, tem um disco que está em rotação máxima por aqui: não paro de ouvir Dias Raros das Melenas.

A culpa por isso é toda do Henry Rollins e do programa que ele tem na KCRW, mas não reclamo: foi uma descoberta que até agora, passadas umas três semanas, ainda perdura.

As meninas são de Pamplona, na Espanha, mas são donas de uma sonoridade que as remete a qualquer lugar entre os anos 1990 e 2010 em qualquer lugar nos dois lados do Atlântico que produziam um som com texturas etéreas para canções perigosamente cativantes e que te arrebatam logo nas primeiras audições.

Sério, Dias Raros tem rolado por aqui e me pego em diferentes momentos retornando a elas no Spotify. Inevitavelmente esbarro e sigo ouvindo o disco e, não raro, volto ao início para escutar novamente. O disco é um daqueles raros momentos em que uma sonoridade deliciosamente pop encontra os aspectos mais elementares daquela pegada indie/alternativa/garageira que você tanto gosta e que anda escassa nesse dias.

Está tudo lá, podem conferir: as meninas mandam muito bem.

Até pouco, vinha escutando algumas das bandas que adoro: The Breeders, Violeta de Outono e Pin-Ups. Preciso dizer que as Melenas caíram feito luvas nessa pegada que mantive há alguns dias por essa pandemia: há um brilho impressionante em canções como No Puedo Pensar que me fez remeter às melodias do Belly e às guitarras de Tanya Donnelly.

Há algo de um Star nesse novo trabalho das Melenas, assim como há algo de quase tudo o que fez minha cabeça nos anos 1990: as guitarras que gritam melodicamente, os vocais etéreos, a falsa atmosfera de despretensão que envolve canções que nos brindam com aquela percepção que só temos a partir da garagem, do fundo da platéia, de quem se aparta para apreciar o que está a acontecer…

Me alegra, confesso, que um grupo como as Melenas aposte em uma sonoridade como essa. São poucos nesses dias capazes de soar tão autênticos e brilhantes como elas…

Parabéns, meninas: suas canções não desgrudam da minha cabeça e isso é um bom sinal – ao menos para mim – de que vocês têm muito pela frente…

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Crítica, Games

Se você não gostou de “The Last Of Us – Part II”, sinto: você não entendeu porra nenhuma, fera!

Enquanto escrevo estas impressões sobre The Last of Us – Part II, novo jogo da Naughty Dog que retoma a história de sobreviventes em um mundo distópico pós-apocalíptico devastado por uma pandemia que transforma seres humanos em criaturas “vegeto-esponjosas”, o Metacritic registra uma divisão: enquanto a crítica especializada atribui uma nota média de 94 pontos de um total de 100, os usuários do mesmo site derrubaram a avaliação do jogo para uma média de 51 pontos.

O que temos em relação ao jogo é uma conflagração, uma disputa entre dois polos que detêm suas motivações e algumas dessas são, senão estúpidas, beirando perspectivas do medievo ou antes disso: devem ser desconsideradas por carregarem desinformação, preconceito e uma cretinice reacionária fétida e bolorenta. São os fantasmas de um mundo inexistente e mais assustador que aquele do jogo.

Assim, falemos de The Last of Us – Part II e deixemos a fauna reacionário em seu cantinho ruidoso…

O jogo é brilhante. Não só por sua narrativa que nos conecta aos dois polos de uma narrativa que se entrecorta e se busca para compor um mosaico sobre medo, perda, raiva, ódio e, finalmente, compreensão e, claro, perdão. Por isso qualquer tentativa de reduzir The Last of Us – Part II a questões de costumes expressará uma minimização ou incompreensão que não sobrevive aos primeiros movimentos da trama – que é longa, com quase 30 horas de duração se o jogador optar por não enveredar por todos os elementos da trama e seus achados.

É um jogo belíssimo, diga-se…

Não é só a história, claro: mas é a história também. E a história contada em The Last of Us – Part II é descomunal em muitos sentidos. É a pura desconstrução de um mundo fragmentado em que os seus buscam por humanidade. Pode parecer estranho, mas a trama gira em torno desses pressupostos. Quando Joel encontra Abby nos primeiros minutos da história, há lampejos de humanidade – colaboração, empatia, amizade -, mas esses são confrontados por aquele ambiente distópico e a “nova normalidade” ali expressa (seja em Ellie recebendo um “sanduíche de intolerância”, seja na fatídica tocaia contra Joel): um mundo que afunda no caos tenta encontrar seus resquícios para reuni-los em algo inteligível.

The Last of Us – Part II é uma experiência, meus amigos. Quem se ofendeu com o que está lá disposto não parece ter entendido que aquela é uma pequena alegoria sobre nossos dias: um mundo devastado até suas bases mais fundamentais por uma pandemia em escala global e que faz ascender o que temos de pior.

Os primeiros minutos de jogo exprimem uma normalidade ante o caos, mas em pouco tempo Ellie, Dina, Joel e Tommy experimentam a realidade. É partir daí que ingressamos em uma espiral que nos vincula a um dos mais brilhantes jogos dos últimos tempos: The Last of Us – Part II salta aos olhos quando nos segura para que possamos experimentar esta travessia através das ruas de uma Seattle arrasada por milícias armadas, clãs religiosos ensandecidos e monstros que não parecem piores que os que ainda se apresentam como “humanos”

Mas é no desenrolar da trama, com as escolhas e o que as demais pessoas fizeram daquela realidade, que somos apresentados às situações e dramas que tornam a narrativa ainda mais complexa: enquanto jogamos com Ellie ou Abby, o jogo nos obriga a lidar com um complexo mosaico de situações, sentimentos e decisões que, mais que nos fazer jogar, nos interroga sobre o que está posto como “jogo” e narrativa.

The Last of Us – Part II não é simplório e, até seu igualmente contundente final, somos embalados por uma narrativa que não nos deixará impassíveis a tudo o que experimentamos. A comparação com A Estrada de Cormac McCarthy me parece inevitável porque, como o livro, The Last of Us – Part II nos devasta a cada página, a cada situação absurda e aterradora – e é justo isso que nos leva a ter esperança.

Talvez você tenha caído nas armadilhas misóginas em torno da trama; talvez você tenha dado trela à fala predominante de uma turba de pretensos supremacistas e fascistinhas sub-letrados que espumaram bile contral este The Last of Us – Part II

O que posso dizer é bastante simples: se este jogo não mexeu com você, é porque não entendeu absolutamente nada sobre o jogo, sua lógica e a realidade que nos cerca contemporaneamente.

Sinto, mas The Last of Us – Part II é um dos jogos mais brilhantes já produzidos. O tempo confirmará…

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Crítica, Música

O Lamento de Dylan Sobre os Dias Que Se Vão…

By the time I got to New York
I was living like a king
There I’d used up all my money
I was looking for your ass
This way or no way
You know, I’ll be free
Just like that bluebird

O trecho acima é de Lazarus, canção que está naquele disco que pode ser considerado a melhor acabada despedida de David Bowie: Blackstar. O disco foi lançado quando Bowie completou 69 anos e, dois dias após seu lançamento, ele deixaria a existência. A canção é sobre esta despedida e, para além desta faixa, tudo está lá em Blackstar: o apelo à vida, a busca por redenção e a certeza de que os dias estão terminando. Não é um disco fácil, mas é o testamento de Bowie.

Por que diabos escrevo sobre Bowie quando quero falar de Bob Dylan e seu trabalho mais recente? Porque “Rough And Rowdy Ways”, novo trabalho de Dylan após oito anos desde o disco anterior, “Tempest”, de 2012, envereda por caminho semelhante àquele traçado pelo Blackstar de Bowie: um acerto de contas com o passado enquanto se tem tempo para tal, mas também uma prece para os dias e caminhos difíceis ainda a trilhar a partir daqui.

I Contain Multitudes”, canção que abre o disco, entrega já nos seus primeiros versos a reflexão sobre como tem sido existir nesses dias e como um dos maiores poetas de nossos tempos tem lidado com a inevitabilidade e como esta urge em um dialogo com sua poesia:

I have no apologies to make
Everything’s flowing all at the same time
I live on the boulevard of crime
I drive fast cars, and I eat fast foods
I contain multitudes

É nessa mesma canção que Dylan busca por Poe e Blake: os fundamentos de sua reflexão, de sua lírica em torno do fim à espreita em suas mais diferentes manifestações e, com isso, nos diz que, apesar de já em conta, ainda há histórias a contar, reflexões a fazer e perspectivas a desnudar enquanto os dias não findam…

Rough And Rowdy Ways
Capa de “Rough And Rowdy Ways” de Bob Dylan.

Dylan alfineta com a afirmação que não é “nenhum falso profeta: apenas sabe o que sabe e diz o que precisa ser dito” em “False Profet”, segunda faixa do disco. Nela, Dylan lança ainda mais lenha nesta estranha fogueira que o cantor acende para refletir sobre si, seu lugar neste mundo revolto e o quão resignado está ao não mais poder/querer intervir em seus rumos.

Lembremos do jovem Bob Dylan, das canções de protesto, das canções sobre amor, guerra, fé, tristezas e alegrias; lembremos do Dylan que movia multidões em torno de sua presença e que desenhou parte da paisagem cultural do Século XX. Bem, é este Dylan que se apresenta para nos lembrar que tudo o que dissera ao longo das décadas de sua travessia, mais que fazê-lo orgulhoso de seu legado, parece o amargurar.

Black Rider”, quinta faixa do álbum, parece aprofundar ainda mais o que Dylan pensa sobre seus dias neste mundo:

Black rider, black rider, all dressed in black
I’m walking away, you try to make me look back
My heart is at rest, I’d like to keep it that way
I don’t wanna fight, at least not today
Go home to your wife, stop visiting mine
One of these days I’ll forget to be kind
”.

A canção mais parece uma conversa entre conhecidos, parceiros, entre indivíduos que nunca deixaram de se encontrar. Este é um ponto interessante desta faixa: aquele com quem Dylan dialoga mais parece um mensageiro que o obriga a rememorar seu passado e é uma das minhas canções favoritas deste disco.

Rough And Rowdy Ways” não é um disco fácil e não agradará a todos, mas é certo que despertará bastante atenção por tudo o que Dylan destila em suas dez faixas. Quando sugiro parágrafos acima a comparação entre este disco e o “Blackstar” de Bowie esta se dá devido a toda carga pessoal, íntima, que Dylan imprime.

Desafio qualquer um a resistir e permanece impassível aos 17 minutos de “Murder Most Foul” e não apenas à narrativa de Bob Dylan para a morte de John F. Kennedy, mas ao percurso que ele faz pela década de 1960 e seus diferentes heróis e fontes de inspiração.

Rough And Rowdy Ways” é um acerto de contas de um poeta com sua história e arte. Não, novamente, um acaso que Poe e Blake estejam lá: Dylan homenageia seus amigos e heróis porque sabe que deixa sua marca na história e cultura; Dylan sabe que será eterno.

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Artigos

Do Baú dos Disruptores: “Álbum da Glasvegas reafirma a relevância do “som de Glasgow””

Deve ser algo com a água. Senão isso, não vejo alternativas coerentes para explicar o porque de, nos últimos dez, quinze ou vinte anos, Glasgow, na boa Escócia velha de guerra, surgirem bandas com grandes chances de nos apontar alguma direção frente ao marasmo. Nomes como Jesus & Mary Chain, Primal Scream, Franz Ferdinand, Mogwai e Teenage Fanclub são exemplos de que, em algum momento, como em um ato de bondade divina, o cenário musical voltou seus olhos para as highlands . Talvez esta seja a missão da Glasvegas: banda que sapecou seu álbum de estréia homônimo e vem colecionando elogios – e críticas, pois ninguém é de ferro -, despontando como uma das novidades aparentemente promissoras de 2008.

Glasvegas, o disco, é um trabalho consistente, maduro e, mais que isso, revestido pelo que acredito ser necessário a qualquer trabalho de arte: uma certa dose tragicômica ideal para provocar nossos sentidos. Bebendo ora na fonte concebida por Phil Spector, ora nos conterrâneos, a Glasvegas consegue um resultado que surpreende e, mais que isso, não nos deixa mais em paz. Depois de duas audições de Daddy’s Gone, faixa de trabalho do grupo, garanto que algo não abandonará seu hipotálamo por um certo tempo…

Mas, de volta ao princípio, com uma mistura que sublima o pop com guitarras etéreas na medida certa, Glasvegas acerta ao misturar harmonias que enveredam pelo mais adocicado pop na mesma proporção em que explora temas pouco simplórios. Senão isso, como explicar um tema ensolarado como You Are My Sunshine fechando uma típica canção-fossa como Flowers And Football Tops. Ironia ferina e nos seus melhores acordes, diga-se.

Dito isso, o disco segue em um crescendo. Somente isso para explicar canções como It’s My Own Cheating Heart That Makes Me Cry que, como o título já sugere, praticamente obriga o ouvinte a procurar o bar mais próximo para afogar quaisquer das suas mágoas – passadas ou vindouras.

Geraldine, por sua vez, é sobre um anjo da guarda/assistente social que resgata almas atormentadas antes que estas cometam alguma cagada, é um dos pontos excepcionais do disco. Assim, uma banda que emenda uma canção cujos versos são “I will, I will turn your tide/Do all that I can to heal you inside/I’ll be the angel on your shoulder/My name is Geraldine, I’m your social worker” tem tudo para figurar na minha lista de boas novas.

Mas o disco não é só uma trilha para afogar as mágoas. Go, Square Go é uma ajuda moral para quem em algum momento teve que enfrentar o valentão da escola. Revestida por uma atmosfera bubblegum que faria corar o velho Spector, a canção é uma das mais improváveis do disco.

Por sua vez, é com Daddy’s Gone que o disco se manifesta em plenitude. Impossível não perceber ecos das Ronettes, dos grupos vocais das décadas de 50 e 60, todos emprestando sua doçura e sonoridade para a construção de uma canção com tema cavernoso: um acerto de contas entre um filho e seu pai ausente. Daddy’s Gone impressiona: toma forma, ganha força e, nos seus segundos finais, explode em guitarras sobrepostas. Há algum tempo o termo wall of sound não ganhava uma representação tão a altura.

No fim, com Ice Cream Van, podemos perceber que Glasvegas pode até ser mais um hype daqueles, porém, fechando o disco, vem mais um empurrão: “There’s a storm on the horizon/And for that I can’t see the sun/For I’ll keep a waiting on the pavement/For the ice-cream van to come“. E assim somos novamente questionados: por que Glasgow e sua música conseguem nos provocar de modo tão singular? No fim, acho mesmo que deve ser a água…

MySpace: http://www.myspace.com/glasvegas

Site: http://www.glasvegas.net/

Confira: Geraldine

Disruptores, 29 de Agosto de 2008.

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Artigos, Baú dos Disruptores

Do Baú dos Disruptores: “Fábulas ou ‘Quando os Contos de Fadas Perdem a Compostura’”

Na primeira vez em que li alguma coisa sobre Fábulas – série da linha Vertigo da DC -, torcer o nariz foi minha reação. Não sei, mas, naquele momento, aparentemente, não estava no clima certo – somente isso para explicar o porquê de não ter sido arrebatado, como fui agora, por esta que é, desde já, uma das mais interessantes HQs dos últimos tempos.

Para muitos, Fábulas é herdeira direta de Sandman – os órfãos de Morpheus insistem nesta tecla; acredito que não é bem por aí. A série de Bill Willingham – criada em 2003 e desde então um sucesso entre os fãs de HQs – detém vida e qualidades próprias: segundo o autor, desde criança imaginava o que aconteceria se os personagens de contos de fadas e fábulas fossem retirados de seus universos originais.

Que caminhos percorreriam tais personagens? Qual teria sido o destino de Chapeuzinho Vermelho depois da morte do Lobo Mau? O que aconteceu com a Branca de Neve depois de se casar com o Príncipe Encantado? Todas as fábulas vivem felizes para sempre? Willingham formula algumas alternativas interessantes para estas e outras perguntas – algumas respostas são, na maioria das vezes, nenhum pouco infantis.

A verdade é que Fábulas – lançada no Brasil inicialmente pela Devir e agora sob os cuidados da Pixel Media – nos conduz através das desventuras das fábulas e seu exílio em nosso mundo. Expulsos pelo misterioso Adversário, muitos dos personagens das histórias de Esopo, Grimm e tantos outros buscaram refúgio em nosso mundo depois que as tropas do invasor inimigo passaram a perseguir e destruir um a um os reinos destas criaturas.

Fundaram, depois de sua chegada ao mundo dos humanos, uma comunidade conhecida como Cidade das Fábulas, nos arredores de Nova York, e, ora liderados pela Branca de Neve – depois que essa, traída pelo Príncipe Encantado, desencanou dos bonitões –, se organizam para aquela que pode ser a batalha final contra o Adversário.

No Brasil, como disse, a Devir lançou dois volumes encadernando os dois primeiros arcos de Fábulas (estes, justamente, não me chamaram a atenção inicialmente). Em junho, com o terceiro número da Pixel Magazine, a Pixel Media deu continuidade à trama.

O Último Castelo foi a aventura escolhida pela editora para reiniciar a cronologia da série por aqui: uma aventura que mostra o último reduto de resistência das fábulas contra as investidas do Adversário. Com ilustrações de Craig Hamilton e roteiro de Willingham, O Último Castelo é uma das HQs mais impressionantes que tive a oportunidade de ler: não somente por sua trama, mas pelo refinamento com que as situações paralelas transcorrem, mostrando o talento de Willingham.

Mas, se você realmente deseja entender porque Fábulas é realmente uma das melhores HQs dos últimos tempos, a sugestão é 1001 Noites cujo terceiro número está nas bancas: escrita por Willingham e ilustrada por artistas do calibre de James Jean (atualmente, capista oficial da série), Brian Bolland (A Piada Mortal e Camelot 3000) e Jill Thompson, 1001 Noites é arrebatadora.

Não apenas nos responde muitas das perguntas que figuram soltas durante a série, mas, graças à Branca de Neve, nos conduz através de uma inteligente recriação das 1001 Noites. Na aventura, em busca de apoio para a batalha contra o Adversário que se aproxima, Branca de Neve segue em direção ao mundo das fábulas do Oriente.

Branca de Neve termina prisioneira do Rei Shahryar – personagem de As 1001 Noites e, bem, um corno mal-resolvido que, noite após noite, executa suas esposas. Para livrar-se do destino de suas antecessoras, Branca de Neva passa a narrar as desventuras de seus iguais e parte de sua trajetória até a Cidade das Fábulas.

A partir daí somos apresentado ao talento de Willingham em contar histórias incríveis: 1001 Noites é um ótimo cartão de visitas para os que ainda não conhecem a série. Mordi a língua e não me arrependo: Fábulas detém todas as indicações de que se transformará em um clássico e Willingham um dos grandes escritores de HQs desta geração.

Disruptores, 16 de Agosto de 2007.

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