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Quando Militares e Bots procuram inverter o fluxo informacional e falham miseravelmente nas redes…

A quinta-feira, dia 08 de Julho, foi um dia complicado…

Primeiro, pelo impacto de uma nota conjunta divulgada pelos chefes das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronautica) e do ministro da Defesa, Braga Netto que confrontava a fala do presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Aziz, no dia anterior, criticara a participação de militares nos recentes casos de sobrepreço e pedidos de propina na intermediação de vacinas pelo Ministério da Saúde, definindo estes como “banda podre” das Forças Armadas. A nota dos militares mandava “recados” para os senadores e para a Democracia Brasileira e não escondia o seu tom belicoso-golpista a serviço do presidente Jair Bolsonaro – ora afundado em escândalos relacionados à compra de vacinas.

A nota não surtiu o efeito pretendido: o apoio ao presidente da CPI, senador Omar Aziz, ficou evidente nas redes, com uma confluência de usuários e falas que expressavam apoio ao senador e às instituições democráticas. Um movimento tão intenso que a participação de setores alinhados ao militares e ao governo bolsonaro foi praticamente varrida da amostragem.

Já o segundo ponto dizia respeito à hashtag “#RachadinhaDoRandolfe”: claramente alçada por hubs alinhados ao bolsonarismo e alimentado por diferentes contas não-validadas, tratou-se de um esforço significativo por parte da base de apoio do presidente nas redes que buscava atribuir ao senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) as práticas ilegais que vêm sendo apontadas e investigadas contra um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

Os perfis alinhados ao governo até conseguiram inflar a hashtag “#RachadinhaDoRandolfe” para que chegasse aos trending topics do Twitter naquele dia, mas logo a estratégia se demonstrou ineficaz, visto que muitos dos apoiadores da CPI no Senado Federal passaram a utilizar a hashtag para ironizar os esforços da base bolsonarista em atacar Randolfe.

O que se viu nos dois movimentos foi que a resposta das redes às duas tentativas de intimidação tanto da CPI quanto de seus integrantes não encontrou eco entre os que acompanham o desenvolvimento das investigações e o atores nelas envolvidos. Os dados apontam que são crescentes as dificuldades do Governo Federal em recuperar o domínio das redes e de reverter o desenho atual que fulmina Jair Bolsonaro e seus aliados.

Pelo menos nas redes, a estratégia do governo e seus apoiadores falhou miseravelmente…

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O #3J ou como a perda das redes representa uma derrota ímpar para Bolsonaro…

Ontem não foi um dia bom para o presidente Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido) nas redes sociais. Com exceção das cavernas ocupadas pelos bolsonaristas em aplicativos de mensagens como o WhatsApp e Telegram, nas demais redes sociais o domínio das hashtags “#ForaBolsonaro”, “#3J”, “#3JPovoNasRuas” e outras palavras que convocaram milhares às ruas no sábado foi evidente.

Com uma amostragem de mais de 180 mil tweets coletados entre as 15h e 22h do dia 3 de Julho de 2021, a mobilização nessa rede social, particularmente, apartou qualquer menção ao presidente que não fosse o pedido por seu afastamento: a dimensão da mobilização nas redes foi tamanha que praticamente nenhum dos tradicionais atores alinhados ao Bolsonarismo apareceu como relevante na amostragem.

A aparente exceção a essa perspectiva se deve à presença do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que figurou entre os usuários da rede que foram cobrados por sua inação na condução dos pedidos de impeachment acumulados em seu poder.

Outro dado que chamou a atenção foi o papel dos hubs alinhados às mídias massivas: @Juliette, @Paola e @gduvivier foram algumas das arrobas que receberam mais retweets e que mais exerceram influência na disseminação das hashtags que pautaram o dia de ontem.

Além delas, os hubs habituais da Esquerda – Mídia Ninja, PT Brasil, Guilherme Boulos, dentre outros, ofuscaram quaisquer tentativas de domínio do fluxo informacional para além das demandas por mais vacinas, ampliação do auxílio-emergencial e a saída de Jair Bolsonaro da presidência.

A demonstração no último sábado nas redes aponta, dentre outros aspectos, além de uma unidade discursiva online – diferentes correntes e posições ideológicas alinhadas contra Bolsonaro -, um alinhamento representativo e orgânico entre as ruas e as redes.

E, para além disso, observando como se desenvolvia esta mesma dinâmica há pouco mais de um ano, fica evidente a derrota do Bolsonarismo em um terreno que muitos apontavam como seu: o eixo político-informativo-comunicacional das redes está em redesenho e o domínio deste território fará muita diferença em 2022.

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O que é possível de ver quando olhamos a paisagem caótica das redes sociais…

Tudo começou como uma espécie de hobby, obviamente: desde muito fui fascinado pela análise de redes sociais e me aventurava analisando elementos isolados em algumas aplicações voltadas às questões mais, digamos, mercadológicas das redes – especialmente quanto à presença de marcas e questões afins -, mas nunca sobre os fluxos informacionais nas redes. Foi acompanhando o trabalho do professor Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (LABIC) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que despertei para a análise de grandes volumes de dados a partir de uma perspectiva mais, digamos, visual.

Não é algo fácil ou simples, adianto: não bastam as estratégias e técnicas de sistemas prontos. Digamos que engatinhei – e ainda engatinho – para aprender a lidar com tais bases. Entre 2016 e 2018 comecei a estudar especificamente os fluxos de informação gerados pelo Twitter e, interagindo com o API daquela rede, passei a estudar um pouco como as conversações naquela rede geravam algumas respostas sobre o comportamento da opinião pública – ou mesmo como esta se equilibrava através daquela rede reproduzindo o que acontecia fora dela.

Este era meu ponto.

A partir daí passei a me dedicar mais e mais à análise de tais fluxos. Comecei a estudar e utilizar o aplicativo de geração de grafos Gephi e seus diversos plugins: com isso passei a visualizar os dados e seus movimentos – e, ainda, seus atores e como estes se inseriam enquanto formadores/propagadores de conteúdos e discursos. Em um país como o Brasil, tal análise implica ver a fragmentação desses nossos dias.

A imagem acima foi o resultado visual das interações colhidas a partir do Twitter e da hashtag #CPIdaCovid, quando do depoimento de Mayra Pinheiro à Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal que investiga às omissões do governo Jair Bolsonaro na condução das ações de combate à pandemia de Covid-19 no Brasil. Dentre outros elementos, o que se sobressai nesta nuvem é o isolamento do governo em relação ao fluxo de informações relacionados à comissão e à pandemia.

Esta me parece uma das principais características deste tipo de análise: a possibilidade de termos o dimensionamento de tais fluxos e perceber como estes se articulam.

É com isso que venho trabalhando desde meados de 2020 e que pretendo trazer parte desses estudos para cá, estabelecendo, sobretudo, um panorama de como as redes se movimentaram inicialmente quando do surgimento da pandemia e como esta tem se comportado nos últimos meses.

Sigamos…

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Belako
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Belako é uma daquelas bandas que você deveria estar ouvindo por motivos de “porque, sim”…

Em “When The Music Is Over”, Jim Morrison canta que “a música é sua única amiga até o fim”. Bem, a música tem sido minha parceira na pandemia: daquelas que, em tempos de distanciamento e cuidados com a Covid-19, vem ocupando pratiamente todos os espaços do meu dia-a-dia…

Um ponto interessante dessa constatação reside nesse lance das descobertas, dos novos sons, novas bandas e afins, e, bem, neste ano de pandemia – em que completei um ano em casa enquanto escrevo esse post – me permitiu descobrir boas novidades e surpresas.

Uma dessas surpresas vem da província de Vizcaya no País Basco, comunidade autônoma da Espanha, e atende pelo nome Belako.

Formada por Cris Lizarraga (vocais e teclados), os irmãos Lore e Josu Billelabeitia (baixo e guitarra respectivamente, além da voz) e Lander Zalakain (bateria e voz), a banda já tem quatros discos lançados e o último deles, Plastic Drama, saiu no ano passado. E foi justo este Plastic Drama um dos meus achados deste 2021 que se iniciou: uma banda a qual simplesmente desconhecia até aqui, mas que detinha uma sonoridade que, de imediato, me pegou de jeito.

Estão lá as guitarras, os vocais etéreos, a sujeira e microfonia que tanto me cativam em diferentes bandas. Os vocais de Cris Lizarraga, me cativaram de imediato e na mesma medida em que procurava listar as diferentes referências do que escutava: estava lá algo da Kim Gordon (Sonic Youth), da Lætitia Sadier (Stereolab), passando por ecos de Kim Deal (Pixies)…

E a banda mescla muito bem todas essas referências em um trabalho que merece toda a atenção.

Talvez a Belako não salve sua vida, mas, pelo menos nesses tempos esquisitos, tem me ajudado com boa música…

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Kidbug
Crítica, Música

O disco de estreia da Kidbug é um bálsamo para esses dias esquisitos…

Kevin Shields e Tanya Donnelly entram em um bar, bebem um cerveja e decidem fazer um disco juntos… É assim que tenho definido o disco homônimo do Kidbug: as texturas de guitarras, as microfonias, aquela melodia característica de algum ponto perdido entre o fim dos anos 1980 e a metade dos anos 1990 estão lá expostas neste disco.

Capa do disco de estreia do Kidbug

O núcleo da Kidbug é formada por Marina Tadic (da Eerie Wanda) e Adam Harding (da Dumb Numbers) e, ainda, por Thor Harris (Swans) e Bobb Bruno (do Best Coast).

Tadic e Harding se conheceram no final de 2018, como explicam na página da banda no Bandcamp, e passaram a trocar cartas de amor e descobrir as afinidades musicais de cada um.

Não é por acaso que fiz a brincadeira lá em cima com dois nomes que considero importantes no cenário indie/alternativo dos anos 1990: a Kidbug passeia com maestria no território de bandas como My Bloody Valentine, The Jesus and Mary Chain, Pixies, Belly, Sonic Youth, dentre outras.

Canções como Lovesick, Never e Woozy caberiam confortávelmente no repertório de quaisquer desses grupos e é justamente a qualidade das canções, das texturas de guitarras e a voz de Tadic que carimbam este álbum de estréia.

O disco, por sua vez, é fruto de um ano esquisito marcado pela pandemia de Covid-19 e pelo distanciamento. Lançado em maio de 2020, o disco detém uma atmosfera tensionada, intimista, confinada diria, que reflete muito desses dias.

Há dois pontos que chamam a atenção nesse álbum de estréia: a voz de Tadic e o trabalho de guitarras que ela e Harding imprimem às canções da banda.

A voz de Marina Tadic remete a algo que se equilibra entre Tanya Donnelly, do Throwing Muses/Belly, e a “eterealidade” de uma Elizabeth Fraser, do Cocteau Twins.

Já as guitarras de Harding e Tadic passeiam pela paisagem sonora com que eles se dizem familiarizados e, talvez por isso, a pegada da banda se finque em microfonias e harmonias que seriam muito bem abrigados em discos como o “Isn’t Anything”, do My Bloody Valentine ou em um “King” do Belly – e aqui a cozinha composta pela bateria de Thor Harris e o baixo de Bobb Bruno levam tudo a um acerto impecável.

Confesso que havia muito não escutava um disco que me chamasse a atenção como esse do Kidbug… Me senti transportado a um tempo e atmosfera que me lembraram como a música pode ser um refúgio para dias como esse.

Parabens aos caras: que belo disco de estreia…

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Artigos, Música

Afinal, o Vinil voltou para ficar!? Não, não voltou: ele sempre esteve aí e, pasmem, fingiu perfeitamente a própria morte…

Há algo que tem feito esta pandemia de Covid-19 um pouco menos desgastante neste interminável 2020: a coleção de discos de vinis que somente cresceu ao longo dela. Cresceu exponencialmente e atravessando os mais diversos gêneros: Jazz, Pop, MPB, Clássico, Rock’n’Roll… Se tem algo que posso me vangloriar é a diversidade dos meus discos, uma vez que ele atravessa todos os gêneros musicais que gosto.

Mas nunca fui um colecionador de discos de vinil, diga-se: isso é algo bastante recente. Antes dos “bolachões”, colecionava as “bolachinhas plásticas e brilhantes”: minha coleção de Compact Discs era, até pouco, a “menina dos olhos” aqui de casa. O primeiro CD que comprei, o “Document” do R.E.M., estava na minha coleção desde o distante ano de 1991 – ano em que comprei meu primeiro tocador de Compact Discs.

De lá até a segunda metade de 2020, a coleção de CDs já continha algo em torno de 1.000 discos que eram cuidados com toda a atenção e cuidado…

Mas em meados de 2016, enquanto circulava pelo Sebo Cata-Livros, um dos mais longevos aqui em Natal/RN e que é comandando pelos amigos Jácio e Vera, dei de cara com um toca-discos usado que eles tinham à disposição por lá. Era um Belt Drive da Kenwood que me fisgou de imediato: comprei o toca-discos, levei para casa e, a partir dali, passei a adquirir discos de vinil com alguma regularidade.

E aqui, antes de prosseguirmos, cabe uma explicação…

Em geral, os toca-discos estão divididos basicamente em dois padrões: Belt Drive e Direct Drive. Os toca-discos Belt Drive são aqueles que têm o “prato” onde o disco de vinil é colocado ligado ao motor através de um sistema de roldanas de borracha. Já os Direct Drive são aqueles toca-discos em que “prato” e motor integram o mesmo elemento. Há fãs para os dois sistemas, mas gosto dos dois – mesmo que atualmente tenha em casa um Technics Direct Drive.

Muito se falou sobre o fim dos discos de vinil com a chegada do Compact Disc entre as décadas de 1980 e 1990, mas, também, sobre o fim das mídias físicas com a expansão do Streaming a partir dos anos 2010, mas o que ocorreu foi a expansão dos discos de vinil em uma escala que, recentemente, superou a dos CDs – primeira inovação que se apresentava como um dos fins para o vinil.

Mas o que motiva afinal esse retorno dos discos de vinil? Para muitos, pura nostalgia: velhos entusiastas do formato estariam investindo nessa mídia e, com isso, estimulando tal retorno.

O único porém que tal raciocínio encontra, no entanto, diz respeito ao público: uma pesquisa recente apontou que cerca de 57% dos consumidores de vinis encontra-se na faixa entre 15 e 25 anos de idade e outra parcela significativa entre 25 e 35 anos, enquanto outros cerca de 25% dos consumidores de discos de vinil está entre os 35 e 35 anos.

Creio que o que motiva boa parte desses consumidores de discos de vinil tem a ver com algo que defino como complementaridade da experimentação: o vinil exige uma maior imersão no processo de ouvir música e não está resumido a apenas um sentido, mas aos mais variados.

Ouvir a um disco de vinil implica não apenas a escuto, mas, sobretudo, o estímulo às componentes visuais, táteis e, porque não, olfativas até desse mídia. Por isso creio que a experiência de ouvir um disco de vinil seja algo mais amplo, complexo e complementar que ouvir uma canção em um serviço de streaming.

A persistência dos discos de vinil é um indicativo de que a lógica de uma “sobreposição das mídias” é tão somente simplista, não dando conta das diferentes dinâmicas que podem envolver à longevidade de uma tecnologia ao longo do tempo – especialmente se considerarmos como diferentes sujeitos interagem e consomem essa mesma tecnologia.

Quando um geração que cresceu com o digital do streaming e adota um suporte calcado no analógico como os discos de vinil vemos não apenas a perspectiva de uma complementaridade entre mídias, mas a persistência de uma delas em relação aos que imaginavam-na superada – como outras recentes, bastando pensar em tecnologias como os Laser-Discs, o VHS ou mesmo as fitas K7.

Voltar aos discos de vinil me leva a constatar que uma mídia depende, sobretudo, do desejo de seus entusiastas por experimentar os limites de uma mídia. Longa vida aos bolachões, meus amigos!

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Esquadrinhando

Vocês deveriam ler “Os X-Men” de Jonathan Hickman, amiguinhos…

Comecei a ler os X-Men muito cedo e, sem medo de errar, sempre foram os personagens da Marvel Comics que melhor capturavam minha atenção. A criação de Stan Lee e Jack Kirby representa aquela síntese que mescla rejeição, superação, senso de comunidade e de luta contra injustiças: prato cheio para crianças/adolescentes em busca de um lugar.

Encontrei o meu com os Fabulosos X-Men que vinham nas páginas da revista Superaventuras Marvel da Editora Abril lá nos anos 1980: “Só dói quando ele ri” aparecia na edição 14 e era a primeira aventura de um arco escrito por Chris Claremont e ilustrado por John Byrne narrando a luta dos personagens contra o vilão Arcade.

Edição de X-Men #1 de Jonathan Hickman pela Panini Comics.

E por que falar de um grupo tradicional de personagens que, ao longo dos anos, passou por tantas mudanças, idas e vindas – com personagens morrendo, ressucitando, morrendo novamente, ressucitando novamente, sendo perseguidos, alguns exterminados, ressurgindo novamente, tudo em uma espiral contínua de transformações!?

Sou suspeito, mas creio que a nova fase dos X-Men escrita por Jonathan Hickman – responsável por uma reformulação memorável no Quarteto Fantástico em que promoveu um importante redesenho na mitologia da “primeira família” da Marvel – é de longe uma das mais profundas transformações já sofridas pelos personagens (algo ainda mais elaborado que a passagem de Grant Morrison lá na primeira metade dos anos 2000).

Hickman transforma os X-Men em uma força política: os personagens não são mais párias superpoderosos fantasiados que resistem ao preconceito e ódio, mas se tornam uma nação autônoma que se apresenta ao planeta estabelecendo seu lugar e conclamando iguais a compartilharem destes mesmo espaço: heróis ou vilões, todos os mutantes são bem-vindos nesta nova configuração estabelecida.

Para tanto, não há Genosha – destruída no arco inicial dos Novos X-Men de Grant Morrison por um grupo de Sentinelas descomunais e selvagens -, mas Krakoa: a ilha viva criada por Len Wein e Dave Cockrum e que fez sua primeira aparição em 1975 nas págins de Giant-Size X-Men #1 em que foram apresentados os Novos X-Men.

Entretanto, Krakoa não é apenas uma ilha, mas um ecossistema mutante que, na proposta de Hickman, se torna abrigo para uma nação autônoma e refúgio todos os mutantes do planeta.

Para tanto, Xavier, Magneto, Moira Moira McTaggert transformam a ilha em um espaço restrito aos mutantes: só aqueles que possuem genes mutantes têm permissão para acessar os diferentes portais que levam à Krakoa.

Mas Jonathan Hickman puxa outras idéias da cartola: como forma de barganhar sua autonomia e existência, os mutantes passam a oferecer as Flores de Krakoa como contrapartida a suas reivindicações.

São três drogas sintetizadas e que oferecem: a possibilidade prolongamento da vida em até cinco anos; um antibiótico universal adaptável; e um último remédio capaz de curar doenças mentais em seres humanos.

Os mutantes se transformam, na visão de Hickman, em um agente político especialmente importante para o cenário mundial. Além disso, Hickman lança mão de uma das mais interessantes construções em torno dos mutantes: o fantasma da morte não passa por Krakoa.

Depois de muito, Charles Xavier descobriu como copiar a mente de todos os mutantes e armazená-las em Krakoa. Além disso, com um grupo de mutantes específicos e que passaram a viver na ilha, tornou-se possível a produção de cópias exatas dos mutantes que eventualmente morrem e, quando ressucitados, Xavier “regrava” suas mentes.

A abordagem de Hickman é revolucionária porque apresenta os X-Men e toda sorte de personagens deste universo como finalmente donos de seus destinos e dispostos à resistência contra quaisquer ameaças.

Uma parte importante dessa resistência é a própria Moira McTaggert, ou Moira X, que, descobrimos na série, é mais que apenas uma brilhante cientista, mas uma mutante-chave para a ascensão deste novo cenário para os X-Men.

Os cinco primeiros volumes dessa saga escrita por Jonathan Rickman e ilustrada por Pepe Larraz estão disponíveis nas melhores bancas e livrarias. Eu, no seu lugar, leria essa que é desde já uma das fortes candidatas a melhor arco de aventuras dos X-Men.

A mudança proposta por Rickman é emblemática e reverberará durante muito nos personagens e não mexe apenas com a narrativa, mas acrescenta componentes como política, respeito às diferenças, autodeterminação dos povos, resistência e preservação ambiental.

Está tudo lá. Jonathan Rickman acerta ao utilizar os clássicos mutantes de Stan Lee e Kirby – que nasceram sob o signo da diferença e resistência – para discutir o presente e o futuro. E este arco é justo sobre como lidar com o futuro e fazê-lo acontecer…

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Ficção

We’re Waiting For The Man…

A gente o chamava de “Speedy”: era ligeiro, safo, um ás… Bastava acionar, que lá ia ele dar conta do recado: era o “emissário”, sempre a mil por hora e pronto para “resolver” geral… “Speedy” era demais: conhecia todas as quebradas de Natal, sabia quando estar e, também, tão importante quanto, quando não estar – especialmente quando as coisas davam merda.

“Speedy” era o nosso homem: aquele que esperávamos sem reclamar porque, sabíamos, ele sempre chegava chegando. Não importava a distância, havia uma força que o impulsionava: era cocaína. “Speedy” era alucinado por aquele “pó mágico”: que, vez ou outra, também buscava para nós. Não por acaso, “Speedy” quase sempre estava à toda – especialmente quando voltava.

Nós, uns moleques de classe média com alguma grana que a “mesada” nos garantia – por “mesada” entendam os assaltos às carteiras e bolsas de nossos pais – e ele era o cara certo para dar conta daquela “ponte” entre o que queríamos e o percurso até os fornecedores certos: “Speedy” conseguia “da soltinha” na seca – entendam, era quase mágico – e os melhores pontos para a “branquinha”, que era o apelido que a gente dava para você sabe o quê (e que não era cachaça, claro). Ele conseguia de tudo para nós – até as novidades: “doce”, hash, mescla…

– Ei, ei, boy: pense que essa tá primeira – costumava dizer, coçando o nariz e com aquela alegria que só quem “bate” uma é capaz de expressar com praticamente todos os músculos do corpo, mas que não revela que deu aquela grampeada marota na parada dos outros.

“Speedy” era foda. Batia os quatro cantos da cidade se quiséssemos resolver alguma bronca: ia e voltava numa boa, daí voltava e ia novamente só pra deixar tudo certo. Sabia também como não cair em ciladas e, se caísse, também como levantar e “se sair” rapidamente.

Daí o “Speedy” mudou. Desacelerou, reduziu, pisou no freio e, assim, como diz, se encontrou: virou pastor… Gonçalo era seu nome, afinal: ironia daquelas. Nunca mais o vimos correndo, virado. Casou, parou e, bem, dia desses caiu: encontrou a polícia e ela “mandou” uma para o lado da casa onde “Speedy” vivia.

Não pôde se sair, perdeu…

“Speedy” era foda, mas não era à prova de balas…

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Artigos

“By The Fire”, de Thurston Moore, expande a discografia do músico, mas abraça saudosistas do Sonic Youth

Bateu um saudosismo daqueles ao ouvir By The Fire, novo álbum do Thurston Moore. Para quem, como eu, seria capaz de passar dias escutando todos os discos do Sonic Youth, banda de Moore que encerrou suas atividades em 2011, este By The Fire é um bálsamo.

O disco traz nove canções que facilmente figurariam em algum disco do Sonic Youth: são canções que se enquadrariam nos limites de clássicos da banda, mas apresentam algo da evolução de Moore em seus voos solo – que, desde 1995, com Psychic Hearts, tem uma produção que rivaliza com os discos de sua antiga banda.

By The Fire também dialoga de certa forma com as direções de Moore em The Best Day, disco de 2014, que apresenta canções com riffs cristalinos e arrangos elaborados partindo das premissas de algumas das canções mais, digamos, “pegajosas” de sua ex-banda.

Canções como Hashish e Cantaloupe, por exemplo, logo na abertura do disco, denúnciam algo desse diálogo de Moore com a trajetória de sua antiga banda, mas demonstrando que o Sonic Youth é componente fundamental desta guinada: estão lá – e também por todo o disco – as estruturas que fazem deste um dos grandes álbuns de Moore e um dos achados deste ano perdido.

E o disco segue em um crescendo com faixas que seguem em um equilíbrio brilhante entre distorção, leveza e mais distorção. Breath e Caligraphy são duas das canções que melhor expressam esta dinâmica: Moore equilibra e “solta a mão” em camadas e mais camadas de guitarras – sendo They Believe In Love [When They Look At You] uma das que me pegaram de jeito por um metodismo de Moore em mesclar um riff que vai ao infinito e seu peculiar trato com as harmonias.

By The Fire é assim: lida com as diferentes camadas desse saudosismo que nos atravessa há quase uma década desde o fim do Sonic Youth, mas, ao mesmo tempo, demonstra que Thurston Moore segue em sua busca por experimentar e expandir seus horizontes com os pés fincados nas suas fundações.

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“Dias Raros” das Melenas é aquele disco que você deveria estar escutando desde ontem…

Olha, tem um disco que está em rotação máxima por aqui: não paro de ouvir Dias Raros das Melenas.

A culpa por isso é toda do Henry Rollins e do programa que ele tem na KCRW, mas não reclamo: foi uma descoberta que até agora, passadas umas três semanas, ainda perdura.

As meninas são de Pamplona, na Espanha, mas são donas de uma sonoridade que as remete a qualquer lugar entre os anos 1990 e 2010 em qualquer lugar nos dois lados do Atlântico que produziam um som com texturas etéreas para canções perigosamente cativantes e que te arrebatam logo nas primeiras audições.

Sério, Dias Raros tem rolado por aqui e me pego em diferentes momentos retornando a elas no Spotify. Inevitavelmente esbarro e sigo ouvindo o disco e, não raro, volto ao início para escutar novamente. O disco é um daqueles raros momentos em que uma sonoridade deliciosamente pop encontra os aspectos mais elementares daquela pegada indie/alternativa/garageira que você tanto gosta e que anda escassa nesse dias.

Está tudo lá, podem conferir: as meninas mandam muito bem.

Até pouco, vinha escutando algumas das bandas que adoro: The Breeders, Violeta de Outono e Pin-Ups. Preciso dizer que as Melenas caíram feito luvas nessa pegada que mantive há alguns dias por essa pandemia: há um brilho impressionante em canções como No Puedo Pensar que me fez remeter às melodias do Belly e às guitarras de Tanya Donnelly.

Há algo de um Star nesse novo trabalho das Melenas, assim como há algo de quase tudo o que fez minha cabeça nos anos 1990: as guitarras que gritam melodicamente, os vocais etéreos, a falsa atmosfera de despretensão que envolve canções que nos brindam com aquela percepção que só temos a partir da garagem, do fundo da platéia, de quem se aparta para apreciar o que está a acontecer…

Me alegra, confesso, que um grupo como as Melenas aposte em uma sonoridade como essa. São poucos nesses dias capazes de soar tão autênticos e brilhantes como elas…

Parabéns, meninas: suas canções não desgrudam da minha cabeça e isso é um bom sinal – ao menos para mim – de que vocês têm muito pela frente…

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