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Quando Militares e Bots procuram inverter o fluxo informacional e falham miseravelmente nas redes…

A quinta-feira, dia 08 de Julho, foi um dia complicado…

Primeiro, pelo impacto de uma nota conjunta divulgada pelos chefes das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronautica) e do ministro da Defesa, Braga Netto que confrontava a fala do presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Aziz, no dia anterior, criticara a participação de militares nos recentes casos de sobrepreço e pedidos de propina na intermediação de vacinas pelo Ministério da Saúde, definindo estes como “banda podre” das Forças Armadas. A nota dos militares mandava “recados” para os senadores e para a Democracia Brasileira e não escondia o seu tom belicoso-golpista a serviço do presidente Jair Bolsonaro – ora afundado em escândalos relacionados à compra de vacinas.

A nota não surtiu o efeito pretendido: o apoio ao presidente da CPI, senador Omar Aziz, ficou evidente nas redes, com uma confluência de usuários e falas que expressavam apoio ao senador e às instituições democráticas. Um movimento tão intenso que a participação de setores alinhados ao militares e ao governo bolsonaro foi praticamente varrida da amostragem.

Já o segundo ponto dizia respeito à hashtag “#RachadinhaDoRandolfe”: claramente alçada por hubs alinhados ao bolsonarismo e alimentado por diferentes contas não-validadas, tratou-se de um esforço significativo por parte da base de apoio do presidente nas redes que buscava atribuir ao senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) as práticas ilegais que vêm sendo apontadas e investigadas contra um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

Os perfis alinhados ao governo até conseguiram inflar a hashtag “#RachadinhaDoRandolfe” para que chegasse aos trending topics do Twitter naquele dia, mas logo a estratégia se demonstrou ineficaz, visto que muitos dos apoiadores da CPI no Senado Federal passaram a utilizar a hashtag para ironizar os esforços da base bolsonarista em atacar Randolfe.

O que se viu nos dois movimentos foi que a resposta das redes às duas tentativas de intimidação tanto da CPI quanto de seus integrantes não encontrou eco entre os que acompanham o desenvolvimento das investigações e o atores nelas envolvidos. Os dados apontam que são crescentes as dificuldades do Governo Federal em recuperar o domínio das redes e de reverter o desenho atual que fulmina Jair Bolsonaro e seus aliados.

Pelo menos nas redes, a estratégia do governo e seus apoiadores falhou miseravelmente…

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O #3J ou como a perda das redes representa uma derrota ímpar para Bolsonaro…

Ontem não foi um dia bom para o presidente Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido) nas redes sociais. Com exceção das cavernas ocupadas pelos bolsonaristas em aplicativos de mensagens como o WhatsApp e Telegram, nas demais redes sociais o domínio das hashtags “#ForaBolsonaro”, “#3J”, “#3JPovoNasRuas” e outras palavras que convocaram milhares às ruas no sábado foi evidente.

Com uma amostragem de mais de 180 mil tweets coletados entre as 15h e 22h do dia 3 de Julho de 2021, a mobilização nessa rede social, particularmente, apartou qualquer menção ao presidente que não fosse o pedido por seu afastamento: a dimensão da mobilização nas redes foi tamanha que praticamente nenhum dos tradicionais atores alinhados ao Bolsonarismo apareceu como relevante na amostragem.

A aparente exceção a essa perspectiva se deve à presença do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que figurou entre os usuários da rede que foram cobrados por sua inação na condução dos pedidos de impeachment acumulados em seu poder.

Outro dado que chamou a atenção foi o papel dos hubs alinhados às mídias massivas: @Juliette, @Paola e @gduvivier foram algumas das arrobas que receberam mais retweets e que mais exerceram influência na disseminação das hashtags que pautaram o dia de ontem.

Além delas, os hubs habituais da Esquerda – Mídia Ninja, PT Brasil, Guilherme Boulos, dentre outros, ofuscaram quaisquer tentativas de domínio do fluxo informacional para além das demandas por mais vacinas, ampliação do auxílio-emergencial e a saída de Jair Bolsonaro da presidência.

A demonstração no último sábado nas redes aponta, dentre outros aspectos, além de uma unidade discursiva online – diferentes correntes e posições ideológicas alinhadas contra Bolsonaro -, um alinhamento representativo e orgânico entre as ruas e as redes.

E, para além disso, observando como se desenvolvia esta mesma dinâmica há pouco mais de um ano, fica evidente a derrota do Bolsonarismo em um terreno que muitos apontavam como seu: o eixo político-informativo-comunicacional das redes está em redesenho e o domínio deste território fará muita diferença em 2022.

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O que é possível de ver quando olhamos a paisagem caótica das redes sociais…

Tudo começou como uma espécie de hobby, obviamente: desde muito fui fascinado pela análise de redes sociais e me aventurava analisando elementos isolados em algumas aplicações voltadas às questões mais, digamos, mercadológicas das redes – especialmente quanto à presença de marcas e questões afins -, mas nunca sobre os fluxos informacionais nas redes. Foi acompanhando o trabalho do professor Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (LABIC) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que despertei para a análise de grandes volumes de dados a partir de uma perspectiva mais, digamos, visual.

Não é algo fácil ou simples, adianto: não bastam as estratégias e técnicas de sistemas prontos. Digamos que engatinhei – e ainda engatinho – para aprender a lidar com tais bases. Entre 2016 e 2018 comecei a estudar especificamente os fluxos de informação gerados pelo Twitter e, interagindo com o API daquela rede, passei a estudar um pouco como as conversações naquela rede geravam algumas respostas sobre o comportamento da opinião pública – ou mesmo como esta se equilibrava através daquela rede reproduzindo o que acontecia fora dela.

Este era meu ponto.

A partir daí passei a me dedicar mais e mais à análise de tais fluxos. Comecei a estudar e utilizar o aplicativo de geração de grafos Gephi e seus diversos plugins: com isso passei a visualizar os dados e seus movimentos – e, ainda, seus atores e como estes se inseriam enquanto formadores/propagadores de conteúdos e discursos. Em um país como o Brasil, tal análise implica ver a fragmentação desses nossos dias.

A imagem acima foi o resultado visual das interações colhidas a partir do Twitter e da hashtag #CPIdaCovid, quando do depoimento de Mayra Pinheiro à Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal que investiga às omissões do governo Jair Bolsonaro na condução das ações de combate à pandemia de Covid-19 no Brasil. Dentre outros elementos, o que se sobressai nesta nuvem é o isolamento do governo em relação ao fluxo de informações relacionados à comissão e à pandemia.

Esta me parece uma das principais características deste tipo de análise: a possibilidade de termos o dimensionamento de tais fluxos e perceber como estes se articulam.

É com isso que venho trabalhando desde meados de 2020 e que pretendo trazer parte desses estudos para cá, estabelecendo, sobretudo, um panorama de como as redes se movimentaram inicialmente quando do surgimento da pandemia e como esta tem se comportado nos últimos meses.

Sigamos…

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Belako
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Belako é uma daquelas bandas que você deveria estar ouvindo por motivos de “porque, sim”…

Em “When The Music Is Over”, Jim Morrison canta que “a música é sua única amiga até o fim”. Bem, a música tem sido minha parceira na pandemia: daquelas que, em tempos de distanciamento e cuidados com a Covid-19, vem ocupando pratiamente todos os espaços do meu dia-a-dia…

Um ponto interessante dessa constatação reside nesse lance das descobertas, dos novos sons, novas bandas e afins, e, bem, neste ano de pandemia – em que completei um ano em casa enquanto escrevo esse post – me permitiu descobrir boas novidades e surpresas.

Uma dessas surpresas vem da província de Vizcaya no País Basco, comunidade autônoma da Espanha, e atende pelo nome Belako.

Formada por Cris Lizarraga (vocais e teclados), os irmãos Lore e Josu Billelabeitia (baixo e guitarra respectivamente, além da voz) e Lander Zalakain (bateria e voz), a banda já tem quatros discos lançados e o último deles, Plastic Drama, saiu no ano passado. E foi justo este Plastic Drama um dos meus achados deste 2021 que se iniciou: uma banda a qual simplesmente desconhecia até aqui, mas que detinha uma sonoridade que, de imediato, me pegou de jeito.

Estão lá as guitarras, os vocais etéreos, a sujeira e microfonia que tanto me cativam em diferentes bandas. Os vocais de Cris Lizarraga, me cativaram de imediato e na mesma medida em que procurava listar as diferentes referências do que escutava: estava lá algo da Kim Gordon (Sonic Youth), da Lætitia Sadier (Stereolab), passando por ecos de Kim Deal (Pixies)…

E a banda mescla muito bem todas essas referências em um trabalho que merece toda a atenção.

Talvez a Belako não salve sua vida, mas, pelo menos nesses tempos esquisitos, tem me ajudado com boa música…

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Afinal, o Vinil voltou para ficar!? Não, não voltou: ele sempre esteve aí e, pasmem, fingiu perfeitamente a própria morte…

Há algo que tem feito esta pandemia de Covid-19 um pouco menos desgastante neste interminável 2020: a coleção de discos de vinis que somente cresceu ao longo dela. Cresceu exponencialmente e atravessando os mais diversos gêneros: Jazz, Pop, MPB, Clássico, Rock’n’Roll… Se tem algo que posso me vangloriar é a diversidade dos meus discos, uma vez que ele atravessa todos os gêneros musicais que gosto.

Mas nunca fui um colecionador de discos de vinil, diga-se: isso é algo bastante recente. Antes dos “bolachões”, colecionava as “bolachinhas plásticas e brilhantes”: minha coleção de Compact Discs era, até pouco, a “menina dos olhos” aqui de casa. O primeiro CD que comprei, o “Document” do R.E.M., estava na minha coleção desde o distante ano de 1991 – ano em que comprei meu primeiro tocador de Compact Discs.

De lá até a segunda metade de 2020, a coleção de CDs já continha algo em torno de 1.000 discos que eram cuidados com toda a atenção e cuidado…

Mas em meados de 2016, enquanto circulava pelo Sebo Cata-Livros, um dos mais longevos aqui em Natal/RN e que é comandando pelos amigos Jácio e Vera, dei de cara com um toca-discos usado que eles tinham à disposição por lá. Era um Belt Drive da Kenwood que me fisgou de imediato: comprei o toca-discos, levei para casa e, a partir dali, passei a adquirir discos de vinil com alguma regularidade.

E aqui, antes de prosseguirmos, cabe uma explicação…

Em geral, os toca-discos estão divididos basicamente em dois padrões: Belt Drive e Direct Drive. Os toca-discos Belt Drive são aqueles que têm o “prato” onde o disco de vinil é colocado ligado ao motor através de um sistema de roldanas de borracha. Já os Direct Drive são aqueles toca-discos em que “prato” e motor integram o mesmo elemento. Há fãs para os dois sistemas, mas gosto dos dois – mesmo que atualmente tenha em casa um Technics Direct Drive.

Muito se falou sobre o fim dos discos de vinil com a chegada do Compact Disc entre as décadas de 1980 e 1990, mas, também, sobre o fim das mídias físicas com a expansão do Streaming a partir dos anos 2010, mas o que ocorreu foi a expansão dos discos de vinil em uma escala que, recentemente, superou a dos CDs – primeira inovação que se apresentava como um dos fins para o vinil.

Mas o que motiva afinal esse retorno dos discos de vinil? Para muitos, pura nostalgia: velhos entusiastas do formato estariam investindo nessa mídia e, com isso, estimulando tal retorno.

O único porém que tal raciocínio encontra, no entanto, diz respeito ao público: uma pesquisa recente apontou que cerca de 57% dos consumidores de vinis encontra-se na faixa entre 15 e 25 anos de idade e outra parcela significativa entre 25 e 35 anos, enquanto outros cerca de 25% dos consumidores de discos de vinil está entre os 35 e 35 anos.

Creio que o que motiva boa parte desses consumidores de discos de vinil tem a ver com algo que defino como complementaridade da experimentação: o vinil exige uma maior imersão no processo de ouvir música e não está resumido a apenas um sentido, mas aos mais variados.

Ouvir a um disco de vinil implica não apenas a escuto, mas, sobretudo, o estímulo às componentes visuais, táteis e, porque não, olfativas até desse mídia. Por isso creio que a experiência de ouvir um disco de vinil seja algo mais amplo, complexo e complementar que ouvir uma canção em um serviço de streaming.

A persistência dos discos de vinil é um indicativo de que a lógica de uma “sobreposição das mídias” é tão somente simplista, não dando conta das diferentes dinâmicas que podem envolver à longevidade de uma tecnologia ao longo do tempo – especialmente se considerarmos como diferentes sujeitos interagem e consomem essa mesma tecnologia.

Quando um geração que cresceu com o digital do streaming e adota um suporte calcado no analógico como os discos de vinil vemos não apenas a perspectiva de uma complementaridade entre mídias, mas a persistência de uma delas em relação aos que imaginavam-na superada – como outras recentes, bastando pensar em tecnologias como os Laser-Discs, o VHS ou mesmo as fitas K7.

Voltar aos discos de vinil me leva a constatar que uma mídia depende, sobretudo, do desejo de seus entusiastas por experimentar os limites de uma mídia. Longa vida aos bolachões, meus amigos!

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“By The Fire”, de Thurston Moore, expande a discografia do músico, mas abraça saudosistas do Sonic Youth

Bateu um saudosismo daqueles ao ouvir By The Fire, novo álbum do Thurston Moore. Para quem, como eu, seria capaz de passar dias escutando todos os discos do Sonic Youth, banda de Moore que encerrou suas atividades em 2011, este By The Fire é um bálsamo.

O disco traz nove canções que facilmente figurariam em algum disco do Sonic Youth: são canções que se enquadrariam nos limites de clássicos da banda, mas apresentam algo da evolução de Moore em seus voos solo – que, desde 1995, com Psychic Hearts, tem uma produção que rivaliza com os discos de sua antiga banda.

By The Fire também dialoga de certa forma com as direções de Moore em The Best Day, disco de 2014, que apresenta canções com riffs cristalinos e arrangos elaborados partindo das premissas de algumas das canções mais, digamos, “pegajosas” de sua ex-banda.

Canções como Hashish e Cantaloupe, por exemplo, logo na abertura do disco, denúnciam algo desse diálogo de Moore com a trajetória de sua antiga banda, mas demonstrando que o Sonic Youth é componente fundamental desta guinada: estão lá – e também por todo o disco – as estruturas que fazem deste um dos grandes álbuns de Moore e um dos achados deste ano perdido.

E o disco segue em um crescendo com faixas que seguem em um equilíbrio brilhante entre distorção, leveza e mais distorção. Breath e Caligraphy são duas das canções que melhor expressam esta dinâmica: Moore equilibra e “solta a mão” em camadas e mais camadas de guitarras – sendo They Believe In Love [When They Look At You] uma das que me pegaram de jeito por um metodismo de Moore em mesclar um riff que vai ao infinito e seu peculiar trato com as harmonias.

By The Fire é assim: lida com as diferentes camadas desse saudosismo que nos atravessa há quase uma década desde o fim do Sonic Youth, mas, ao mesmo tempo, demonstra que Thurston Moore segue em sua busca por experimentar e expandir seus horizontes com os pés fincados nas suas fundações.

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“Dias Raros” das Melenas é aquele disco que você deveria estar escutando desde ontem…

Olha, tem um disco que está em rotação máxima por aqui: não paro de ouvir Dias Raros das Melenas.

A culpa por isso é toda do Henry Rollins e do programa que ele tem na KCRW, mas não reclamo: foi uma descoberta que até agora, passadas umas três semanas, ainda perdura.

As meninas são de Pamplona, na Espanha, mas são donas de uma sonoridade que as remete a qualquer lugar entre os anos 1990 e 2010 em qualquer lugar nos dois lados do Atlântico que produziam um som com texturas etéreas para canções perigosamente cativantes e que te arrebatam logo nas primeiras audições.

Sério, Dias Raros tem rolado por aqui e me pego em diferentes momentos retornando a elas no Spotify. Inevitavelmente esbarro e sigo ouvindo o disco e, não raro, volto ao início para escutar novamente. O disco é um daqueles raros momentos em que uma sonoridade deliciosamente pop encontra os aspectos mais elementares daquela pegada indie/alternativa/garageira que você tanto gosta e que anda escassa nesse dias.

Está tudo lá, podem conferir: as meninas mandam muito bem.

Até pouco, vinha escutando algumas das bandas que adoro: The Breeders, Violeta de Outono e Pin-Ups. Preciso dizer que as Melenas caíram feito luvas nessa pegada que mantive há alguns dias por essa pandemia: há um brilho impressionante em canções como No Puedo Pensar que me fez remeter às melodias do Belly e às guitarras de Tanya Donnelly.

Há algo de um Star nesse novo trabalho das Melenas, assim como há algo de quase tudo o que fez minha cabeça nos anos 1990: as guitarras que gritam melodicamente, os vocais etéreos, a falsa atmosfera de despretensão que envolve canções que nos brindam com aquela percepção que só temos a partir da garagem, do fundo da platéia, de quem se aparta para apreciar o que está a acontecer…

Me alegra, confesso, que um grupo como as Melenas aposte em uma sonoridade como essa. São poucos nesses dias capazes de soar tão autênticos e brilhantes como elas…

Parabéns, meninas: suas canções não desgrudam da minha cabeça e isso é um bom sinal – ao menos para mim – de que vocês têm muito pela frente…

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Do Baú dos Disruptores: “Álbum da Glasvegas reafirma a relevância do “som de Glasgow””

Deve ser algo com a água. Senão isso, não vejo alternativas coerentes para explicar o porque de, nos últimos dez, quinze ou vinte anos, Glasgow, na boa Escócia velha de guerra, surgirem bandas com grandes chances de nos apontar alguma direção frente ao marasmo. Nomes como Jesus & Mary Chain, Primal Scream, Franz Ferdinand, Mogwai e Teenage Fanclub são exemplos de que, em algum momento, como em um ato de bondade divina, o cenário musical voltou seus olhos para as highlands . Talvez esta seja a missão da Glasvegas: banda que sapecou seu álbum de estréia homônimo e vem colecionando elogios – e críticas, pois ninguém é de ferro -, despontando como uma das novidades aparentemente promissoras de 2008.

Glasvegas, o disco, é um trabalho consistente, maduro e, mais que isso, revestido pelo que acredito ser necessário a qualquer trabalho de arte: uma certa dose tragicômica ideal para provocar nossos sentidos. Bebendo ora na fonte concebida por Phil Spector, ora nos conterrâneos, a Glasvegas consegue um resultado que surpreende e, mais que isso, não nos deixa mais em paz. Depois de duas audições de Daddy’s Gone, faixa de trabalho do grupo, garanto que algo não abandonará seu hipotálamo por um certo tempo…

Mas, de volta ao princípio, com uma mistura que sublima o pop com guitarras etéreas na medida certa, Glasvegas acerta ao misturar harmonias que enveredam pelo mais adocicado pop na mesma proporção em que explora temas pouco simplórios. Senão isso, como explicar um tema ensolarado como You Are My Sunshine fechando uma típica canção-fossa como Flowers And Football Tops. Ironia ferina e nos seus melhores acordes, diga-se.

Dito isso, o disco segue em um crescendo. Somente isso para explicar canções como It’s My Own Cheating Heart That Makes Me Cry que, como o título já sugere, praticamente obriga o ouvinte a procurar o bar mais próximo para afogar quaisquer das suas mágoas – passadas ou vindouras.

Geraldine, por sua vez, é sobre um anjo da guarda/assistente social que resgata almas atormentadas antes que estas cometam alguma cagada, é um dos pontos excepcionais do disco. Assim, uma banda que emenda uma canção cujos versos são “I will, I will turn your tide/Do all that I can to heal you inside/I’ll be the angel on your shoulder/My name is Geraldine, I’m your social worker” tem tudo para figurar na minha lista de boas novas.

Mas o disco não é só uma trilha para afogar as mágoas. Go, Square Go é uma ajuda moral para quem em algum momento teve que enfrentar o valentão da escola. Revestida por uma atmosfera bubblegum que faria corar o velho Spector, a canção é uma das mais improváveis do disco.

Por sua vez, é com Daddy’s Gone que o disco se manifesta em plenitude. Impossível não perceber ecos das Ronettes, dos grupos vocais das décadas de 50 e 60, todos emprestando sua doçura e sonoridade para a construção de uma canção com tema cavernoso: um acerto de contas entre um filho e seu pai ausente. Daddy’s Gone impressiona: toma forma, ganha força e, nos seus segundos finais, explode em guitarras sobrepostas. Há algum tempo o termo wall of sound não ganhava uma representação tão a altura.

No fim, com Ice Cream Van, podemos perceber que Glasvegas pode até ser mais um hype daqueles, porém, fechando o disco, vem mais um empurrão: “There’s a storm on the horizon/And for that I can’t see the sun/For I’ll keep a waiting on the pavement/For the ice-cream van to come“. E assim somos novamente questionados: por que Glasgow e sua música conseguem nos provocar de modo tão singular? No fim, acho mesmo que deve ser a água…

MySpace: http://www.myspace.com/glasvegas

Site: http://www.glasvegas.net/

Confira: Geraldine

Disruptores, 29 de Agosto de 2008.

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Artigos, Baú dos Disruptores

Do Baú dos Disruptores: “Fábulas ou ‘Quando os Contos de Fadas Perdem a Compostura’”

Na primeira vez em que li alguma coisa sobre Fábulas – série da linha Vertigo da DC -, torcer o nariz foi minha reação. Não sei, mas, naquele momento, aparentemente, não estava no clima certo – somente isso para explicar o porquê de não ter sido arrebatado, como fui agora, por esta que é, desde já, uma das mais interessantes HQs dos últimos tempos.

Para muitos, Fábulas é herdeira direta de Sandman – os órfãos de Morpheus insistem nesta tecla; acredito que não é bem por aí. A série de Bill Willingham – criada em 2003 e desde então um sucesso entre os fãs de HQs – detém vida e qualidades próprias: segundo o autor, desde criança imaginava o que aconteceria se os personagens de contos de fadas e fábulas fossem retirados de seus universos originais.

Que caminhos percorreriam tais personagens? Qual teria sido o destino de Chapeuzinho Vermelho depois da morte do Lobo Mau? O que aconteceu com a Branca de Neve depois de se casar com o Príncipe Encantado? Todas as fábulas vivem felizes para sempre? Willingham formula algumas alternativas interessantes para estas e outras perguntas – algumas respostas são, na maioria das vezes, nenhum pouco infantis.

A verdade é que Fábulas – lançada no Brasil inicialmente pela Devir e agora sob os cuidados da Pixel Media – nos conduz através das desventuras das fábulas e seu exílio em nosso mundo. Expulsos pelo misterioso Adversário, muitos dos personagens das histórias de Esopo, Grimm e tantos outros buscaram refúgio em nosso mundo depois que as tropas do invasor inimigo passaram a perseguir e destruir um a um os reinos destas criaturas.

Fundaram, depois de sua chegada ao mundo dos humanos, uma comunidade conhecida como Cidade das Fábulas, nos arredores de Nova York, e, ora liderados pela Branca de Neve – depois que essa, traída pelo Príncipe Encantado, desencanou dos bonitões –, se organizam para aquela que pode ser a batalha final contra o Adversário.

No Brasil, como disse, a Devir lançou dois volumes encadernando os dois primeiros arcos de Fábulas (estes, justamente, não me chamaram a atenção inicialmente). Em junho, com o terceiro número da Pixel Magazine, a Pixel Media deu continuidade à trama.

O Último Castelo foi a aventura escolhida pela editora para reiniciar a cronologia da série por aqui: uma aventura que mostra o último reduto de resistência das fábulas contra as investidas do Adversário. Com ilustrações de Craig Hamilton e roteiro de Willingham, O Último Castelo é uma das HQs mais impressionantes que tive a oportunidade de ler: não somente por sua trama, mas pelo refinamento com que as situações paralelas transcorrem, mostrando o talento de Willingham.

Mas, se você realmente deseja entender porque Fábulas é realmente uma das melhores HQs dos últimos tempos, a sugestão é 1001 Noites cujo terceiro número está nas bancas: escrita por Willingham e ilustrada por artistas do calibre de James Jean (atualmente, capista oficial da série), Brian Bolland (A Piada Mortal e Camelot 3000) e Jill Thompson, 1001 Noites é arrebatadora.

Não apenas nos responde muitas das perguntas que figuram soltas durante a série, mas, graças à Branca de Neve, nos conduz através de uma inteligente recriação das 1001 Noites. Na aventura, em busca de apoio para a batalha contra o Adversário que se aproxima, Branca de Neve segue em direção ao mundo das fábulas do Oriente.

Branca de Neve termina prisioneira do Rei Shahryar – personagem de As 1001 Noites e, bem, um corno mal-resolvido que, noite após noite, executa suas esposas. Para livrar-se do destino de suas antecessoras, Branca de Neva passa a narrar as desventuras de seus iguais e parte de sua trajetória até a Cidade das Fábulas.

A partir daí somos apresentado ao talento de Willingham em contar histórias incríveis: 1001 Noites é um ótimo cartão de visitas para os que ainda não conhecem a série. Mordi a língua e não me arrependo: Fábulas detém todas as indicações de que se transformará em um clássico e Willingham um dos grandes escritores de HQs desta geração.

Disruptores, 16 de Agosto de 2007.

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Do Baú dos Disruptores: “Morrison, Quitely e Os Doze Trabalhos do Homem de Aço”

Um Superman como nunca se viu. Esta é a primeira impressão que o leitor terá ao conferir Grandes Astros: Superman que chegou às bancas brasileiras em Janeiro e agora pousou nas minhas mãos. A publicação apresenta ao público brasileiro as “diabruras” que vêm sendo promovidas pela dupla Grant Morrison & Frank Quitely no título All-Star Superman.

Os dois foram responsáveis por uma das revistas mais bacanas de 2005, We3, e também pela revolução que tomou conta dos X-Men quando da passagem de Morrison pela publicação – meses antes da DC Comics renovar seu passe junto à editora. Morrison já tinha passado pela DC e deixado sua marca: Homem-Animal, Os Invisíveis e o clássico Asilo Arkham são alguns dos petardos do cidadão – sem falar na fase da Liga da Justiça roteirizada por ele e sua incursão pela séria DC: Um Milhão. Know-how o cidadão tem de sobra…

A linha All-Star, no EUA, vem redefinindo alguns dos principais personagens da DC. A idéia é bem simples: grandes nomes – roteiristas, ilustradores, arte-finalistas, etc. – com total autonomia criativa para redefinirem (caso de All-Star Batman & Robin, lançada aqui sob o título de Grandes Astros: Batman & Robin que está sob o comando de Frank Miller e Jim Lee) ou mesmo conduzir seus personagens através de novas perspectivas.
Capa deGrandes Astros: Superman lançada em janeiro pela Panini Comics

No caso de Grandes Astros: Superman, a idéia de Morrison é que cada edição detivesse vida própria; as aventuras não fariam parte de um imenso arco ou dependeriam disso para apresentar algum sentido. No entanto, mesmo sob tal conceito, as aventuras fariam parte de algo apelidado pelo autor como “Os Doze Super-Desafios”; uma profissão de fé a qual o Homem de Aço se submeteria. All-Star Superman está em sua sexta edição lá fora e, tendo lido todas, posso dizer que a aposta de Morrison é alta e inovadora à estratosfera…

Na primeira edição, para ter-se uma idéia – justamente aquela que chega ao Brasil – os quatros quadros que inauguram esta nova fase contam a origem do personagem: sem firulas, frescuras e outras bobagens. Morrison foi saudado por resgatar o herói – recém saído dos eventos meia-boca de Crise Infinita – e apresentá-lo de uma maneira, pra ficar em um adjetivo menor, empolgante.

A edição, como disse, abre com quatro quadros traçando a origem do Superman; depois disso, saltamos direto para o Sol e lá nos deparamos com os Helionautas: um grupo de cientistas do Projeto DNA que promovem pesquisas na superfície solar. A ação decorre quando uma criatura enviada por Lex Luthor pretende explodir a expedição.

Uma das sacadas interessantes desta apresentação é, primeiro, o diálogo entre Luthor e o General Lane. É neste instante, quando Luthor chega à conclusão de que seus dias estão irremediavelmente acabando e o Superman não envelhece, que somos apresentados à linha que guiará a trama de alguns dos próximos capítulos da série: Lex Luthor movendo o planeta para obter sua vitória sobre o Homem de Aço.

Após a derrota do “homem-bomba” criado por Luthor, Superman é alertado que seu passeio pela superfície solar sobrecarregou suas células e que estas começaram a morrer. Sua fonte de energia decretou sua morte… Mais uma vez Grant Morrison faz um passeio pelo mundo ultra-tecnológico: replicação por DNA Bizarro; citações a Ray Bradbury; Nanotecnologia; tudo que possa virar a cabeça do leitor ao avesso – assim como fez com We3 e Os Invisíveis…

Depois de retornar a Terra – tendo descoberto que sobram-lhe poucos dias de vida –, Superman tem em mente algumas ações que somente comprando a revista você descobrirá…

Bem… Se de um lado temos o genial roteirista chamado Grant Morrison, de outro temos o traço de Frank Quitely. Devo ter uma lista de pelo menos quinze adjetivos enaltecendo a técnica de Quitely: todos não conseguem chegar perto da qualidade do trabalho do cidadão. A capa desta primeira edição, por exemplo, fala por si: um Superman sereno, sentado em uma nuvem sobre Metrópolis, aproveitando os primeiros raios de um nascer do Sol. Incrível…

No interior da revista, Quitely dá vida às pirações de Morrison com seqüências e planos impressionantes. Um dos exemplos mais incríveis é aquele que narra o intervalo entre o diálogo entre Luthor, General Lane e o Homem-Bomba a bordo da nave Ray Bradbury. Outro ponto alto é o encontro do Superman com as cópias produzidas pelo Projeto DNA a partir das células de Bizarro – culminando com a apresentação dos Titãs Expedicionários e Nanonautas.

O estilo de Quitely – grandiloqüente e minucioso – tem sido uma das causas para os atrasos da publicação, fazendo com que os fãs arranquem os cabelos enquanto esperam a próxima edição. Apesar de tudo, Quitely continua imbatível: seu traço e cuidado com as cores lembra o estilo de Moebius – provavelmente uma de suas influências…

No mais, meu caro, gaste alguns Reais (R$ 3,90 para ser exato) e confira a primeira edição de Grandes Astros: Superman. Deixe de ser mão-de-vaca…

Disruptores, 15 de Fevereiro de 2007.

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