Comics

Tudo morre. Nos quadrinhos, sempre; nas telas, não será diferente…

Painel de Secret Wars da Marvel Comics

Assisti há alguns dias a Capitão América: Guerra Civil. O novo filme do universo cinemático da Marvel Studios me surpreendeu, confesso, por mostrar-se uma das crias mais coesas desta nova leva de filmes e séries calcados no universo narrativo da Marvel Comics.

Entretanto, algo me chamou a atenção neste último filme – e também na segunda temporada de Demolidor: uma sutil e por vezes imperceptível escalada para o fim. Não o fim de toda a narrativa, mas as portas para uma escalada de conflitos que levará certamente à morte de alguns personagens.

Não, não é algo raro nos quadrinhos. Se levarmos em conta que a Marvel Comics liquidou de uma vez vários de seus “universos” ficcionais recentemente – procurem pelo arco “Tudo Morre” dos Novos Vingadores e vocês entenderão ou, mais ao final, no arco “O Tempo Se Esgota”, prelúdio para as novas Guerras Secretas -, nas telas a dinâmica aparentemente segue na mesma direção.

Há uma atmosfera de conflito iniciada com a tal Guerra Civil e que se desenvolverá mais e mais nos próximos filmes da franquia Vingadores, disso eu não tenho dúvidas. No entanto, resta saber quais cairão até lá. Tenho algumas apostas, mas, bem, prefiro não opinar até confirmar minha teoria…

A questão é bem simples, no entanto: o universo cinemático da Marvel Studios está se expandindo muito rapidamente e as diferentes frentes narrativas e seus personagens parecem culminar para algo grandioso. Conhecendo bem a editora, não seria estranho que em tal processo de expansão alguns personagens terminassem fora do caminho. Vejam bem: não os mais emblemáticos, mas aqueles que estão à margem e, em algum caso especial, algum grande para dar uma “engrenada” no drama…

A verdade, creio, é que a temporada mortífera para alguns personagens deste tal universo cinemático poderá começar com a estréia da primeira parte Vingadores: Guerra Infinita, em maio de 2018: de longe o primeiro grande evento que a Marvel Studios pretende levar a cabo.

A partir daí, creio, será uma sucessão de grandes eventos e produções em diferentes meios que culminarão em uma grande e espetacular catarse. Uma catarse que, é certo, desagradará muitos fãs deste universo audiovisual elaborado pela Marvel, mas que, algo relativamente comum aos que acompanham as Histórias em Quadrinhos, não causará tanta surpresa entre os que conhecem algo do universo impresso da editora.

Não é que seja uma surpresa, mas o universo cinemático da Marvel Studios é apenas mais um. Tudo o que acontece nele, bem, está distante daqueles desenvolvidos em outros meios. A morte, neste contexto, é também renovação. Vejamos até quando a Marvel Studios seguirá até que tudo morra.

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Artigos, Música

Regravando, refazendo…

Nunca escutei a Taylor Swift. Não por nada, mas ela não é o tipo de musa pop que me chama a atenção. Em algum momento a Madonna fez isso; nos anos 1990-2000, a Britney Spears também. Mas, mais que elas, a maneira como alguns grupos que admiro se apropriaram das canções destas musas me levaram a perceber algo além.

Versões como Like a Virgin ou Baby, One More Time, pelos escoceses do Teenage Fanclub e Travis, ou mesmo a desconstrução que os moços do Sonic Youth promoveram ao (sub)verter o clássico Into The Groove de Madonna ou Superstar dos Carpenters, me permitiram atentar para este flerte entre o pop e as diferentes variantes do rock’n’roll. Não tenho nada contra covers, mas, pela profusão de discos dedicados às releituras de outros artistas, vivemos um momento interessante…

Experiências como aquelas protagonizadas pelo Flaming Lips – com releituras de clássicos como The Dark Side of The Moon ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – ou mesmo outras ainda mais inspiradas como o The Walkmen decidira regravar o álbum Pussy Cats de Harry Nilsson, para ficar em exemplos recentes, não são novidade, se considerarmos que já na década de 1970 Booker T. & The M.G.’s desmontaram um clássico como Abbey Road, dos Beatles, e nos entregaram com algo ainda mais brilhante: seu McLemore Avenue.

Voltando ao início, nunca me interessei pela sonoridade de Ms. Swift. Mas, confesso, a curiosidade me motivou a conferir o que canadense Ryan Adams fizera ao regravar 1989, álbum mais recente da moça, e imaginar o quão estranha esta combinação seria. Na verdade, fui surpreendido…

A surpresa foi por perceber que aquele disco que sequer escutara na voz de sua dona – exceção das onipresentes Shake It OffBad Blood – me parecera algo especial.

 

 

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Cinema, Crítica

A Bruxa não é somente um filme de terror, mas uma indicação para o futuro do gênero

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Há o pecado. Antes dele, o pecado original e a noção de que todos os que creem carregam as marcas deixadas nos primeiros que com ele se viram marcados. A Bruxa, filme de Robert Eggers, é sobre homens pecadores e os descaminhos que estes tomam buscando negar, ignorar, contornar ou, não raro, aceitar seus pecados. Não, não é tão somente um filme de terror – está até distante disso -, mas, antes um filme sobre o temor…

Tudo começa quando uma família de puritanos é excomungada da comunidade onde vive em algum momento da colonização da América do Norte no Século , a esta só resta aceitar seu destino e seguir seu caminho em busca de seu próprio lugar naquele reino selvagem.

Assim, o patriarca William e sua mulher Katherine levam seus filhos Thomasin, Caleb, os gêmeos Mercy e Jonas e o pequeno Samuel para algum lugar onde possam construir seu paraíso. Mas este paraíso está maculado. Não pela bruxa que se esconde em um casebre na floresta, mas, sim, por aqueles que compartilham aquele pequeno pedaço de terra.

Os primeiros minutos que mostram as orações de Thomasin, a jovem que pede perdão por seus pecados, por sua arrogância, por seus desejos, é apenas o aperitivo do desenrolar de eventos que começam com o sequestro do bebê Samuel – arrastado pela Bruxa até seu esconderijo e sacrificado por ela.

A presença do mal se torna a preocupação da família: o mal escondido, sorrateiro e sombrio que habita a floresta os assusta, mas aquele que carregam individualmente, bem, este se desenrola e ganha as telas enquanto a tensão em A Bruxa torna-se mais e mais densa – até o ponto que temos a impressão de poder rasgá-la com os dedos.

Poster de "A Bruxa" de Robert Eggers.

Poster de “A Bruxa” de Robert Eggers.

Quando descobrimos as mentiras de William, os desejos de Caleb pela beleza que aflora de Thomasin, da insolência dos gêmeos e da arrogância da matriarca Katherine, estamos diante dos pecados silenciosos de cada um daqueles. O mal os envolve e este explodirá em algum momento.

O diretor Robert Eggers foi particularmente feliz em criar esta pequena alegoria do mal e de como este cobra seu preço. Elementos como roteiro, fotografia e direção de arte nos conduzem através desta jornada à perdição completa e ver esta família derrotada é a grande lição que A Bruxa nos entrega: a derrota como resultado da hipocrisia, da falta de apreço, da negação do mal, me parece o que norteia o longa de Eggers.

Para além, A Bruxa certamente motivará as mais acaloradas discussões, mas, sem medo de cometer um equivoco, posso afirmar que o filme ingressará entre aqueles de seu gênero: do horror calcado nas componentes psicológicas mais profundas, mesmo que o inusitado, o sobrenatural, o indizível esteja lá à espreita.

O diabo, como sempre, está no detalhes e em A Bruxa persistem os detalhes que tornam-no um dos melhores longas de suspense/horror já produzidos.

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Artigos

A Estrela Negra terá que esperar um pouco, pois ainda lamento…

David Bowie (1947-2016)

Que me perdoem os amigos, mas não quero lembrar de David Bowie por este último disco. Dirão alguns que tudo estava lá, sua transição, a transformação necessária para os que por Ela esperam…

Enfim… Prefiro deixar Black Star suspenso em algum lugar da minha coleção, esperando, maturando; prefiro escutá-lo quando uma certa urgência finalmente for determinante. Ainda tento assimilar com meus botões e alguma música  a morte repentina – ou não tão assim – dele. Fiquei atordoado por acordar com a notícia de que ele morreu, confesso…

Porque, bem, não é fácil quando um de seus heróis morre… Não qualquer herói, mas aquele que mais lhe dizia sobre muito. Por isso, especialmente no caso de Bowie, é algo difícil: ele está naquela foto em preto e branco junto a Lou Reed e Iggy Pop; ele é parte daquela “Trindade” de heróis; ele era daqueles que sempre estiveram por aí comigo – no headphone, em casa, quando penso em música, enfim, sempre.

Bowie esteve nas mais diferentes fases dessa minha travessia: ele foi uma das minhas primeiras imagens ainda nos 80, requebrando malemolente com Mick Jagger; eu o vi atravessando as sombras dos anos 1990; o vi se reinventar nos anos 2000 e algo, mas, sempre, desafiante e revolucionário… Em todos estes momentos Bowie sempre foi mais.

Talvez por isso não queira lembrar de Bowie por um disco que, sim, penso como menor; um disco que, mesmo celebrando a vida, nos conduz à despedida. Creio que esta é a questão: não quero me despedir porque Bowie era essa tal força da natureza de potência criadora/inspiradora inigualável.

Pense nisso e reflita por um instante o quão aquela lista de bandas e música que você adora foi influenciada por alguma faceta desse moço estranho, de olhos estranhos e estranhamente inovador – e que nos apresentou de Ziggy a Thin White Duke nas mais diferentes reconfigurações/metamorfoses destes.

Dizer um até logo para David Robert Jones parece fácil mas não para David Bowie, meus amigos. Dizer adeus para o sujeito que pautou tendências na música, comportamento, fotografia, artes plásticas, cinema e tecnologia – para ficarmos nos mais óbvios – não é tarefa fácil.

Me atrevo a dizer que o mundo hoje se transformou em um lugar mais árido, sem graça, sem gosto, com a morte de Bowie.

Me atrevo a dizer que mesmo com sua história, arte e legado, me entristece saber que provavelmente ninguém terá potencial de realizar algo tão vibrante, inovador, vivo quanto este moço de Brixton….

Vá em paz moço e saiba que sua música ecoará para sempre: aquela Estrela Negra me esperará por um tempo, mas vou procurá-la em breve.

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Cinema, Crítica

Aquele providencial riso histérico não mascarará seu desconforto com “Que Horas Ela Volta?”

Que Horas Ela Volta?

“O Som Ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho, mantinha até pouco sua posição confortável entre aqueles longas desconfortáveis que tratavam de algumas das tensões que ora reverberam neste país – e de como estas implodem certos paradigmas sociais, econômicos e culturais bem arraigados em nossa sociedade.

Bem, mantinha… Agora o filme de Kleber Mendonça tem que disputar minha admiração com outro recente, belo, complexo e indispensável filme: “Que Horas Ela Volta?”, da Anna Muylaert.

A comparação entre os dois não soa improvável – já que a própria Muylaert Entrevista com Anna Muylaert pondera que os dois dialogam de alguma forma -, mas esta mesma proximidade possível apoia-se em um viés: enquanto o que em “O Som Ao Redor” é pura fúria explodindo na tela e dando sentido aos diferentes conflitos e à negação em potência de uma reconciliação inexistente, “Que Horas Ela Volta?” mira nos silêncios, na suavidade, em uma desconstrução sensível de um conflito – este, especialmente representado pela “rebeldia” posterior de Val, a doméstica interpretada de modo brilhante por Regina Casé.

Cartaz do longa "Que Horas Ela Volta?" de Anna Muylaert.

Cartaz do longa “Que Horas Ela Volta?” de Anna Muylaert.

Val é aquela típica doméstica-matrona que bem conhecemos: obrigada e doutrinada a saber seu “lugar”, mesmo sendo quase da família e que limita-se a tentar agradar seus patrões: é assim que “Que Horas Ela Volta?” nos remete aos outros cômodos da nossa grande Casa Grande; é assim que nos leva para um ambiente onde a manutenção de uma lógica de submissão recorre à disposição de atores que reconhecem as diferentes matizes sociais em jogo e que as ignoram…

Não por acaso os principais instantes de tensão no longa se dão a partir de uma porta deslizante que separa a sala de jantar da cozinha: este, o lugar onde a mise-en-scène elaborada por Muylaert ganha mais força e  evidencia não apenas um sujeito, mas a segregação deste, o esmagamento de sua identidade…

É neste contexto que Jéssica, a filha que Val deixa para trás mas que nunca a esquece, é um personagem gigantesco. Interpretada de modo impecável por Camila Márdila, Jéssica é o motor transformador da trama: o longa que em seus primeiros minutos parecia uma caricatura de uma classe média resolvida em seus recalques se transforma com a chegada da “filha da empregada”. A sensação que temos com a chegada de mais este peão no conflito é de que poderíamos cortar o ar com os dedos, tamanha a tensão que a personagem imprime.

Todos os planos que atravessam o longa – seja ao redor da piscina, nos jardins da casa ou mesmo na dualidade cozinha-sala de jantar – são revisitados de certa maneira para demonstrar a tensão que a chegada deste novo ator atribui à trama. Prova disso? Para muitos a cena à beira da piscina ou a da filha da empregada comendo o “sorvete de Fabinho” são considerados momentos-chaves: particularmente fico com o choque da descoberta de que a filha da empregada se sobressaiu onde não deveria – e vocês entenderão o porquê.

É neste instante que se opera uma transformação, que o conflito se elucida, que as revelações se consolidam. “Que Horas Ela Volta?” é surpreendente por nos apresentar como estas operam, como certos “valores” são destroçados e como a descoberta do possível, de algo que fora negado pode ser obtido, pode libertar.

Particularmente, “Que Horas Ela Volta?” é a irmã centrada de “O Som Ao Redor”: uma irmã que, tanto quanto seu irmão, sabe quais pingos importam nos is…

Talvez por isso o riso histérico de alguns nas sessões do longa não mascarem o aparente desconforto que o longa imprime.

 

 

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Artigos, Televisão

As séries televisivas para além dos enlatados…

Breaking BadPertenço à geração que conviveu com a cantilena insuportável de que as séries de TV representavam uma forma estranha de anestesia e dominação coletiva destinada a contaminar e desvirtuar espectadores da América Latina e a transformar os cérebros destes em poleguinho – tem até música da Legião Urbana que aborda o tema, para termos uma idéia do drama…

Porém, quem nunca encarou um “enlatado americano”, que atire a primeira pedra… Sou fã de séries de TV desde os tempos em que falar sobre elas em círculos de amigos era um pecado mortal e posso afirmar que elas, as séries, integram meus referenciais sobre narrativas audiovisuais com demasiada relevância.

Como desconsiderar o impacto cultural televisivo de séries como Arquivo X Millennium ou Twin Peaks – algumas delas apontadas como fundamentais para o cenário atual do drama audiovisual-televisivo? Para Brett Martin, autor de Homens Difíceis – livro que traça uma cronologia desta recente Idade de Ouro da TV -, o momento-zero da revolução atual que vivenciamos com as séries de TV se dá em algum momento entre Oz, Sex And The CityOs Sopranos. À sua maneira, cada uma destas estabeleceram as bases para as mudanças que ora vivenciamos nas telas de nossas tevês – e, mais, para além destas.

Assim, discutir o lugar ocupado pelas séries de TV entre as diferentes formas audiovisuais implica reconhecer a dimensão complexa e as diferentes transformações que alteraram o entorno desta forma de entretenimento: produções recentes como Mad MenBreaking BadGame Of Thrones ou True Detective – para ficarmos em algumas – evidenciam a revolução nas narrativas dramáticas audiovisuais que, mesmo voltadas preferencialmente para a TV, ultrapassam os limites desta, escorregam por entre os dedos de tal meio e oferecem novas possibilidades para este…

The Sopranos - Photo Credit: Will Hart / HBO

The Sopranos – Photo Credit: Will Hart / HBO

Estas narrativas dramático-televisivas têm contribuído não apenas para expandir nossos modos de consumir/ver TV, mas, ainda, oferecem possibilidades e desafios para aqueles que produzem conteúdos para tal mídia: da expansão das narrativas em diferentes ambientes/formatos ou da experimentação destas em outros e igualmente diversificados suportes, um dos principais desafios aos criadores tem sido o de flertar, convencer e cativar espectadores em tempos de completa diversidade em um ecossistema de experiências comunicacionais complexas; de fazê-los compreender e torná-los participes de um ambiente ecológico-comunicacional com diferentes nuances e artefatos.

É fato que produções como Os Sopranos, para ficarmos em um dos estopins desta nova fase das séries, contribuíram ao estabelecimento de uma revolução para o meio: até meados da década de 1990 do século passado, o drama televisivo representava  um espaço para os iniciados, um artefato cultural menor frente, por exemplo, ao Cinema. Produções como Os Sopranos ou, algo mais recente, True Detective impulsionam não apenas um meio/mídia mas engendram através das telas o estabelecimento de uma linguagem ampliada e elaborada que expande o gênero ficcional-televisivo.

Esta é a lógica que ora transforma a tevê e o mundo das séries: como quando uma proposta como a do Netflix e sua lógica do streaming audiovisual explicitam os caminhos/descaminhos da narrativa ficcional dramático-televisiva contemporânea fazendo a experimentação de um produto audiovisual ultrapasse a tela do televisor e, a partir de outras telas, de outras formas de experimentar possíveis, de outros meios de chegar aos seus, possibilitem a expansão de um artefato cultural, de seu consumo adaptado e de sua recontextualização.

Os serviços de streaming audiovisual e os canais por assinaturas das redes a cabo de televisão vêm despontando como as pontas de lança desta transformação. Os investimentos de grandes como a Amazon – que decidira criar seu próprio núcleo de produção dedicado às narrativas ficcionais seriadas – ou AMC provam que o gênero ainda não encontrou maiores limitações. Assim, ainda é cedo para estimar com clareza o impacto e a profundidade deste na expansão protagonizada por esta nova idade de ouro da televisão, porém podemos afirmar que as narrativas ficcionais televisivas vêm expandindo os modos e a própria indústria da TV.

 

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Artigos, Televisão

True Detective e o início de uma outra tensa e estranha jornada…

True Detective - Trecho Abertura

O que poderíamos dizer sobre o início desta segunda temporada de True Detective, meus amigos? Depois de uma primeira temporada que ficou marcada a ferro nas retinas de meio mundo – até daqueles que ainda teimam em nutrir descrença quanto a esta tal Idade de Ouro da Televisão – o que Nic Pizzolatto, criador e showrunner da série, poderia nos oferecer? Bem, em uma resposta rápida: outra espiral de personagens auto-destrutivos, eventos estranhos/esquisitos e algumas mortes, claro.

O episódio de estréia da nova temporada, The Western Book of The Dead, periga colocar em curso uma nova jornada literário-televisiva como aquela que, na primeira temporada, obrigou um sem número de neófitos a se esgueirarem pelas artimanhas ficcionais de Robert W. Chambers, sua mitologia de Carcosa e seu Rei de Amarelo: há um livro estranho – na verdade, dois – que se veste com as mesmas cores existenciais e que aparentemente atravessa algo da trama. Mas, creio, o que na primeira temporada parecia uma linha que atravessava uma trama, este tal Livro dos Mortos não terá muita serventia…

Há uma atmosfera frágil e tensa quando somos apresentados ao detetive Ray Velcoro (Collin Farrell) enquanto deixa seu filho na escola: já ali poderíamos cortar a tela, tamanha a tensão que toma conta dos primeiros minutos da série. Uma tensão que se mantém quando percebemos o nascimento do aparente entendimento entre Velcoro e o gangster – e sugerido vilão – Frank Semyon (Vince Vaughn).

São também tensas as apresentações dos também policiais Ani Bezzerides (Rachel McAdams) e Paul Woodrugh (Taylon Kitsch) – ambos envolvidos por uma componente sexual que, bem, se desenvolverá durante os próximos capítulos. A personagem de McAdams, no entanto, já demonstra uma complexidade aparente quando somos apresentados a seu pai – um guru Eliot, interpretado por David Morse – e ao verdadeiro nome da personagem: Antigona… A partir daí, façam suas apostas para mais um carrossel literário-televisivo.

truedetective_s0201aPara muitos, o primeiro episódio desta primeira temporada certamente parecerá algo tanto morno… Porém, especialmente para os que assistiram o primeiro episódio da primeira temporada de True Detective antes de seu hype, esta é a natureza da série e do desenvolvimento de seus diversos núcleos: cada personagem mostrado em suas nuances e particularidades; cada evento desenvolvendo mais e mais aqueles envolvidos pela trama. Talvez por isso a direção de Justin Lin neste primeiro episódio da segunda temporada da série mostre pouco do que pretende.

O grande mérito deste primeiro episódio – e da direção de Lin – foi a manutenção das diferentes tensões que envolvem os personagens e a convergência destas até o pretenso “climax” final. Assim, quando no último momento todos os integrantes deste novo embate entre gatos e ratos se colocam dispostos no limite entre duas cidades e diante do corpo de um até agora desconhecido e excêntrico Ben Caspere, o que podemos apenas dizer é que os capítulos desta trama que emula os limites do que é viver e morrer neste ocidente prometem muito…

Assim, que venham os próximos capítulos deste novo movimento de Nic Pizzolatto em sua busca por superar o sucesso de sua primeira cria, porque, mesmo cedo, dada a disposição dos jogadores, esta nova temporada de True Detective aparenta reservar algumas boas surpresas…

PS. Somente pela abertura, a série já ganha todos os pontos possíveis para tal quesito: mantiveram o nível da anterior e a expandiram…

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Artigos, Cinema

“Mad Max: Fury Road”: a estrada, a fúria e uma distópica alegoria sobre um mundo fora do prumo…

Mad Max: Road Fury

Há um plano que se repete em quase todos os filmes da série Mad Max de George Miller e é uma cena simples, recorrente, mas icônica: “Mad” Max Rockatansky com um olhar aparentemente perdido frente àquela espiral de eventos que o envolve e tendo tão somente o volante de seu turbinado e envenenado carro. O protagonista da trama criada por George Miller geralmente nos sugere a desesperança e inevitabilidade daqueles envolvidos pelo universo distópico e pós-apocalíptico que fez da série um dos clássicos do gênero. O espaço além do volante de sua máquina é o lugar mais ou potencialmente seguro para Max: aquele que enreda sua redenção.

Bem. Este mesmo espaço é o que transforma Imperator Furiosa, interpretada por Charlize Theron em Mad Max: Fury Road, na verdadeira força motriz do novo longa da série.

Provavelmente este foi o grande porém levantado por muitos daqueles que assistiram o filme na última semana – com uma pitada da boa e velha misoginia: uma mulher recuperando o legado de Mad Max e, pasmem, tornando a trama ainda mais frenética e brutal? Sim, amigos, Furiosa é quem disputa nossa atenção nesta nova aventura de George Miller.

Assim, como dizem por aí: apenas aceite…

No mais, o longa, tanto quanto Mad Max (1979) e Mad Max: The Road Warrior (1981), é uma fábula distópica sobre o mundo depois do fim: esgotados os recursos naturais, os combustíveis e os alimentos, o ser humano recorrerá ao seu pior. A fábula pretendida por Miller desde o primeiro longa da série a quase quatro décadas é sobre como incorporamos rapidamente tal “pior” e o que estaríamos dispostos a fazer para nos livrar disso. Max (agora interpretado por um competente Tom Hardy) nunca esteve muito interessado em lidar com este tal pior: desde o primeiro longa, a reserva e a cautela sempre foram as marcas do personagem – além da explosão de fúria incontrolável quando estas marcas são dispostas em conflito.

Os primeiros minutos deMad Max: Fury Road são por si uma das mais tensas sequências que o cinema de ação poderia ter produzido na última década: tentando se desvencilhar de seus captores, percorrendo desesperado os corredores de uma fortaleza enquanto uma horda de warboys corre em busca de sua cabeça, o que vemos é um Max sendo, claro, Max: mergulhado em um Inferno do qual somente se desvencilhará por um golpe de sorte…

Imperator Furiosa preparada para a guerra...

Imperator Furiosa preparada para a guerra…

Quando Furiosa decide sequestrar um carro de guerra, resgatar as escolhidas do lider Immortan Joe (em mais um inesquecível vilão levado a cabo por Hugh Keays-Byrne) e atravessar meio mundo em busca do “verde”, não resta opção a um submisso Max – atordoado pela visão de seus fracassos – senão acompanhar todo o conflito que resultará das decisões daquela mulher, sobreviver e acompanhar o desenrolar da missão da real protagonista do longa.

Esta me parece a principal questão em todo o longa: esqueçamos o turbilhão de imagens, explosões, dos personagens exageradamente insanos e mantenhamos o foco no conflito entre dois personagens igualmente poderosos – e que disputam nossa atenção sequência a sequência. Imperator Furiosa é Max mesmo quando não pretende sê-lo: todos os elementos que nos longas anteriores alimentavam o mito de Max Rockatansky foram raptados por Furiosa.

Warboys fazendo o trabalho sujo de Immortan Joe...

Warboys fazendo o trabalho sujo de Immortan Joe…

O momento em que Furiosa pinta seu rosto para a guerra que virá enquanto lida com a ira de Immortan Joe e seus warboys – procurando para isso atravessar o canyon dos motoqueiros em seu percurso rumo a uma aparente salvação – é um destes momentos em que o conflito entre o velho Max e sua contraparte feminina são evidenciados ao longo da trama, mas ele, Max, não se mostra desconfortável com tal situação, porém, para além disso, por diversas vezes o vemos surpreso com a força daquela que se coloca entre os que dela precisam e seus opressores.

Até que o velho e pouco louco Max retomem as rédeas de seu próprio longa, nos resta o clímax e uma nova corrida rumo a um mundo que precisa de algum rumo. No fim, Mad Max: Fury Road se apresenta como daqueles filmes de ação que aprendemos a gostar muito cedo e que, mesmo embalado por seus alertas sobre um distópico e sombrio futuro que nos aguarda, cumpre com maestria seu principal objetivo: nos deixar presos à poltrona enquanto “Mad” Max Rockatansky tenta achar algum sentido em um mundo sem rumo.

Trailer:
https://youtu.be/hEJnMQG9ev8

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A Fortaleza “réia” que, transformada e transtornada, confronta a memória…

Créditos: Divulgação/Haroldo Saboia

É possível perceber o  flerte sinfônico-progressivo que o Cidadão Instigado imprime nas faixas de Fortaleza, novo trabalho dos caras e, de longe, um dos melhores discos de rock’n’roll já gravados – e uma das obras mais pessoais que a música brasileira poderia produzir.

Talvez Fernando Catatau, Regis Damasceno, Dustan Gallas, Rian Batista e Clayton Martin não assumam isso, mas Fortaleza é pessoal pra caralho: parece a reflexão de alguém que, ao trilhar seu próprio caminho, apegado à memória e à aposta feita em um futuro incerto, conclui que tudo valera a pena.

Capa de Fortaleza, novo trabalho da banda Cidadão Instigado

Capa de Fortaleza, novo trabalho da banda Cidadão Instigado

De “Até Que Enfim” até “Lá Lá, Lá Lá, Lá Lá” o que temos é um desfile memorialista – pessoal e musicalmente falando. Não, não é por acaso que uma canção como “Perto de Mim” nos remeta a uma “Welcome To The Machine“: é parte da conversa, do diálogo, da memória que a banda constrói…

Também não é por acaso que a faixa-título beba em diferentes vertentes e passei do repente ao progressivo para contar como as memórias de uma cidade esvanecem, se transformam e, como consequência, nos levam a interrogar o que diabos acontecera com o lugar ao qual pertenciamos: como aquela “réia” cidade fora perdida e, ora transtornada/transformada, nos obriga a vê-la como uma estranha…

Fortaleza pode se encarado como um relato elaborado daqueles reunidos em torno não apenas de uma banda – neste caso, a Cidadão Instigado -, mas das diferentes experiências que se desenvolveram a partir dela. Os que, cansados de esquivar-se, decidem seguir; aqueles que, inquietos, vêem na imprevisibilidade da estrada uma alternativa; os que recordam seus dias no lugar onde viveram e, desiludidos, percebem que tal lugar não existe mais.

São diferentes às acepções para a palavra Fortaleza; também são as influências que alimentam o mosaico concebido por Catatau para iluminar sua Fortaleza: nos ecos de um Raul Seixas em “Quando a Máscara Cai“; no flerte com o progressivo que conecta “Perto de Mim” e “Besouros e Borboletas“; e no rock’n’roll em plena graça de “Dudu vivi dada” (mesmo remetendo à estética musical de comerciais de cigarros do final dos anos 1980), temos um álbum indispensável não apenas para compreendermos uma das mais incríveis bandas paridas por este país…

Um disco que é uma Fortaleza, mas, esta, escancarada para os que quiserem ver seus diferentes e promissores corredores, é uma reserva de surpresas.

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Uma obra-prima agora à distância…

Não sei, mas tenho uma queda por discos com o astral lá embaixo. Uma rápida olhadela nos meus, basta para se dar conta que muitos deles não são lá muito solares. Por isso não estranhe quando procuro falar das virtudes de No More Shall We Part, do Nick Cave & The Bad Seeds: namoro com este disco há alguns anos e, bem, já disponho de alguns outros discos do sujeito para dizer que este é especial…

No More Shall We Part é daqueles discos que você certamente não escutaria em um churrasco ou, quem sabe, não levaria para aquela festa com teus amigos. Não, nunca: este é um disco de fossa; de todas as fossas possíveis; de todos os nomes possíveis para definir o que diabos chega a ser uma fossa.

Da faixa-título até seu encerramento, o que temos em No More Shall We Part é tão somente um desfile sombrio de canções soturnas, inquietas e o desejo que estas parecem expressar por nos ver como coadjuvantes de algumas daquelas pequenas e desconfortáveis histórias concebidas por Cave e sua trupe.

Capa de “No More Shall We Part”, de Nick Cave And The Bad Seeds

Desconfortáveis como, por exemplo, As I Sat Sadly By Her Side onde aparentemente mãe e filho se reconectam e observam como a vida passeia diante de seus olhos; como todas as coisas se dobram frente ao tempo e a inevitabilidade deste. A mesma inevitabilidade que move um sujeito que decide deixar o leito que habita e experimentar o mundo mais uma vez, como narra uma canção igualmente poderosa como Hallelujah.

No More Shall We Part coleciona momentos que se equilibram entre o belo desesperador e o angustiante sublime. Com relação ao primeiro, fico com uma das minhas canções favoritas já compostas por Nick Cave: Fifteen Feet of Pure White Snow. A sensação que temos ao escutá-la é a de que estamos afundando e, ainda assim, mesmo percebendo o cadafalso, nos consideramos satisfeitos pela beleza envolvente de tal condição – mesmo quando temos a catarse metafórica da “pura e branca neve” que nos preenche na coda final da canção e nos abraça como que para um último e inevitável mergulho.

Porém, este último esforço parece reservado para God Is In The House. A ironia transborda por todos os lados através desta canção dona de uma acidez sublime: a vida moderna, seus temores, suas angustias, todas elas depositadas e repousando no colo de um Deus pronto para distribuir suas benesses para todos e todas as direções: “não há dúvidas: Deus está em casa” mesmo que não tenha deixado-a ainda, os seus habitantes estão abandonados à própria sorte e às agruras da existência.

E é assim, equilibrando-se em uma faixa em linha reta rumo ao cadafalso, rumo à queda inevitável que No More Shall We Part nos conduz. É estranho escrever sobre um disco de 2001 em pleno Ano da Graça de 2015, mas, bem, como disse, tenho uma queda por discos sombrios e, talvez, não queira deixá-los para trás – especialmente os clássicos.

No More Shall We Part é um clássico da desesperança, da tristeza e de como, ainda assim, há uma estranha beleza nos versos de Nick Cave e na música levada a cabo pelos Bad Seeds. Um clássico especialmente porque, mesmo em toda sua inevitável amargura, nos oferece uma certa iluminação. Talvez por isso tenha decidido não me afastar mais desta inevitável necessidade de escrever sobre esta bela obra-prima até agora distante…

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