Cinema, Crítica

Na dúvida, fico com o filme. Mas, bem, prefiro “Atlanta”…

Nas intenções, Cara Gente Branca da Netflix parece uma boa série. Parece. O que temos no fim, bem, é uma série que desmorona em seus episódios – e não pensemos sequer em compará-la com sua contraparte cinematográfica porque aí a coisa fica ainda mais complicada. Mas, partamos inicialmente de seu principal motor: a discussão das tensões raciais contemporâneas nos EUA hoje. Se tomarmos tal premissa e compararmos Cara Gente Branca com séries como Atlanta, por exemplo, a discussão sobre tais tensões desmancha a olhos vistos.

Estão lá, claro, todos os temas complexos e dolorosos da questão racial nos EUA, mas, bem, o que resulta na tela mais parece uma mescla entre Faça a Coisa Certa com As Patricinhas de Beverly Hills – sim, exagerei, mas este é o ponto. A série peca por uma diluição desnecessária deste tema em diversos sub-núcleos narrativos que, mais que apresentar a complexidade do problema, o dilui. Sim, sim: temos a diluição narrativa como estratégia para percepção do problema central – mas, novamente, nem digamos que a série estica à estratosfera uma trama que se resolve em um longa…

Para muitos, a discussão suavizada e embalada em termos mais “acessíveis” ajuda da disseminação dos tópicos essenciais do problema; a meu ver, pasteuriza e relativiza a questão. Cara Gente Branca move a engrenagem da relativização das discussões sobre raça e suas tensões um pouco mais para diluição. Em seus episódios, o racismos se transforma em pano de fundo praticamente disperso e dá lugar a diferentes abordagens caricaturais do “American Way of Life”.

Creio que, mais que discutir abertamente questões cruciais desses dias bastantes estranhos, “Cara Gente Branca” plastifica, torna homogênea e relativiza tais questões. Este processo, sim, algo que emerge da série.

Na boa, não perca seu tempo: veja “Atlanta” do Donald Glover. Esta, sim, uma série que importa em muitos sentidos…

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Crônicas

A Espera Tem Lado

Tenho lado. Sim, desde sempre. Desde que percebi que, mesmo que não o queiramos, é imprescindível ter lado. Talvez seja maniqueísmo, mas, vejam: ter lado implica uma definição de princípios, uma reunião consolidada de idéias e uma perspectiva prática inerente a tal conjunto.

Ter lado é necessário. Sempre estive do lado daqueles que sentem ou sentiram a miséria na própria carne; dos que não julgam pela cor da pele, credo ou desejos; dos que estão dispostos a ouvir, mesmo que o que ouvirão seja avesso ao que se acredita; dos que creem que o injusto não pode prevalecer; dos que sabem perder porque, ao aceitar tal, ganham mais; dos que aceitam perder, mas que não se deixam dobrar na direção do malfeito; dos que amam, odeiam, percebem, perdoam.

Este sempre foi meu lado. Não tenho e, creio, nunca terei qualquer chance de convívio com quem não compartilha de tais premissas. Chame do que quiser. Diga que não devemos separar o mundo entre “nós” e “eles”. Mas, de verdade, esta é uma idéia necessária: não tenho necessidade e não me interessa converter feras. Para elas, silêncio.

Às feras pouco importa meu lado; pouco importam meus valores; pouco importam os meus. Às feras não interessa o respeito, a doçura e o bem querer. Às feras importa a fúria e a cegueira da violência. Ela, a violência, cega desde sempre, cala pelo grito.

Temos lado. Eu e você temos. Sempre tivemos e sempre teremos. Estou do lado de cá. A calmaria não é um sinal de fraqueza aqui. É, sobretudo, a espera. Esperamos. Este lado vence. Sempre. Vencerá.

Espere e confie.

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Cinema, Crítica

O live-action de Ghost in The Shell é somente casca: não há “fantasma”…

O anime Ghost in The Shell, de Mamoru Oshii e lançado em 1995, é uma bomba filosófica. Não por acaso, filmes como Matrix ou Ex-Machina beberam diretamente do longa ao discutirem questões como inteligência e consciência artificiais: os dilemas e reflexões encerrados naquele filme reverberam até hoje e sua influencia é visível tanto em filmes quanto em séries contemporâneas e, creio, esta é uma componente valida a considerar quando nos deparamos com o remake do diretor britânico Rupert Sanders.

O Vigilante do Amanhã, mesmo investindo em um elenco estelar e num trabalho de arte impecável buscando transpor muitos dos elementos que atravessam o anime, falha quando investe em uma construção narrativa alinhada ao esquema típico dos blockbusters hollywoodianos contemporâneos. A opção do diretor resulta em algo vazio, sem sentido, sem alma…

O remake de Sanders é tão somente um apanhado visual impecável que tenta atribuir substância a uma reunião de elementos narrativos fáceis, conflitos simplórios e termina tão somente por nos apresentar algo esquemático, superficial e irrelevante. Conceitos caros ao anime de Oshii terminam subvertidos ou, melhor, diluídos em um arremedo que se pretende palatável. Não é isso o que termina na tela, mas justamente seu contrário: um longa risível para os, como eu, fãs do longa de 1995; um filme de ação caótico e superficial, mas funcional para os que se importam menos com a narrativa e mais com o visual.

Assim, considero que o filme não tem um “fantasma” que o sustente em pé,  mesmo a presença de um elenco de peso – com Scarlett Johansson, como a Major Motoko como seu principal nome -, incapaz de impedir a queda vertiginosa da trama. Nomes como Takeshi Kitano e Juliette Binoche, também utilizados quase que superficialmente, se mostram aparentemente perdidos em uma espiral sem sentido que desfigura o anime completamente.

Quando digo que não há “fantasma” em O Vigilante do Amanhã é porque lhe falta alma, substância. O filme é um espetáculo visual e muitos dos elementos visuais apresentados no anime – a versão realista de uma futura e tecnologicamente caótica Hong Kong impressiona – convergem e surpreendem quem espera tão somente por uma transposição do anime ao live-action, mas é só.

No fim, nos resta tão somente a casca. E justo sobre isso, é a predominância de tal casca que cobra um preço caro ao filme quando restam apenas diálogos constrangedores em sua superficialidade – a discussão sobre o “fantasma” entre a Major (Johansson) e a Dra. Ouelet (Binoche) é risível de tão rasa – e um roteiro frágil. O que sobra do peso sobre tal casca se transforma em trunfo frente à fragilidade da trama porque, visualmente, o filme apresenta tudo o que um fã do anime poderia esperar – descontada a história.

Não pretendo aqui tomar seu tempo explicando, por exemplo, a história de Ghost in The Shell: qualquer pesquisa rápida no Google resolve esta questão na boa. Tão pouco pretendo minar seu desejo por ver o remake, mas, antes, gostaria apenas de alertar que, independente da ordem, ver o anime de Oshii ou o remake de Sanders fará com que você veja ambos os filmes com outros olhos.

Para o bem ou para o mal, afinal, nosso “fantasma” pede sempre por mais e mais.

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Cinema

Rogue One é o retorno ao primordial em Star Wars

Jyn Erso (Felicity Jones)

Sim, Rogue One: Uma História de Star Wars é de longe um dos melhores filmes produzidos pela franquia criada por George Lucas. O longa, dirigido por Gareth Edwards, não se faz de rogado frente a seu antecessor – Star Wars: O Despertar da Força – e, pasmem, supera em muito a narrativa cuja continuidade foi dada por J.J. Abrams.

Vejam, para além dos três longas originais, Rogue One é surpreendente por apresentar uma aventura que até então encontrava-se perdida entre as linhas que introduzem o quarto episódio da saga – Star Wars: Uma Nova Esperança. Ao contar a história de um grupo de párias que se une para obter os esquemas secretos de construção da estação de batalha do Império conhecida como Estrela da Morte, Edwards nos permite preencher algumas das lacunas da narrativa.

O resultado em Rogue One é que nos colocamos diante de um longa que lida sobretudo com a familiaridade dos fãs com os episódios originais da saga, fazendo com que recuperemos quase que imediatamente toda a sucessão de eventos que culminarão em O Despertar da Força. Para além disso, o drama vivenciado pela história de Jyn Erso (Felicity Jones) e seu grupo nos enche de empatia por aquele esforço brutal.

Cartaz de Rogue One: Uma História de Star Wars

Tal drama começa com o abandono de Jyn por seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen), logo nos minutos iniciais do filme, sendo este levado por Orson Krennic (Ben Mendelsohn), diretor de pesquisa avançadas em armamentos do Império para atuar em um projeto considerado definitivo.

Depois de esconder-se e ser resgatada pelo rebelde extremista e veterano das Guerras Clônicas Saw Guerrera (Forest Whitaker), Jyn é recrutada pela Aliança Rebelde para que reencontre seu pai. Na verdade, uma cortina de fumaça para que Cassian Andor (Diego Luna) execute o pai de Jyn. Entretanto ambos não contam com a revelação de que Galen criara a Estrela da Morte com uma falha capaz de destruir a estação de combate.

E este se transforma do mote da missão de Jyn e demais párias: encontrar os esquemas de construção da estação e transmití-las à Aliança Rebelde para que possa eventualmente destruí-la. Uma missão suicida.

E é neste contexto que temos uma homenagem: Rogue One é sobretudo um tributo a Akira Kurosawa e seu filme Os Sete Samurais. Não por acaso, uma das inspirações de George Lucas quando da idealização de sua saga: os elementos da cultura japonesa e da construção narrativa de Kurosawa atravessam Star Wars.

Os párias que se reúnem para lutar contra o adverso cientes do preço de tal ação é o mote de Os Sete SamuraisRogue One dialoga com isso a cada momento – seja na resistência de K-2s0 (Alan Tudyk), no sacrifício de Chirrut Îmwe (Donnie Yen), até a sequência final – e é assim que temos a representação de algo muito caro ao longa de Kurosawa e presente na produção de Gareth Edwards: abnegação em troca de esperança.

Este foi o mote para a obra-prima de Akira Kurosawa; este é o mote para Rogue One: Uma História de Star Wars.

Talvez por isso o longa tenha ganho um local privilegiado entre os filmes da franquia: aqueles que realmente souberam traduzir a essência do cinema em sua plenitude; aqueles que sabem como contar uma história e cativar suas audiências.

O longa de Gareth Edwards está inscrito desde já entre esses.

 

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Comics, Crítica

Miracleman briga de igual para igual com Watchmen… Aceitem!

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O título é uma provocação. Mas depois de ler o último volume da fase Alan Moore à frente de Miracleman – milagrosamente publicada pela Panini Comics no Brasil -, a provocação fará sentido…

Não tenho dúvidas de que, sim, a colaboração de Moore em Miracleman pode ficar anotada como uma daquelas obras-primas jamais produzidas para as Histórias de Quadrinhos.

Uma obra-prima que alimenta e é percebida através dos ecos, de sua reverberação através de outras obras igualmente únicas de Moore. A voz que alimenta a narrativa de Miracleman ao longo dos três arcos canônicos – Sonho de VoarA Síndrome do Rei Vermelho Olimpo – de Alan Moore se mostra presente em momentos tão diferentes quanto próximos: WatchmenA Saga do Monstro do Pântano ou mesmo uma série interrompida em seu nascedouro como Big Numbers trazem elementos que podemos atribuir à experimentação que alimenta Miracleman.

Capa de Miracleman #15, publicada no Brasil pela Panini Comics

Capa de Miracleman #15, publicada no Brasil pela Panini Comics

Os três arcos de Alan Moore à frente do personagem resultam de uma revolução: o personagem criado por Mick Anglo na década de 1950 foi uma saída para um imbróglio internacional quando a DC Comics decidiu deixar de publicar histórias do Capitão Marvel no Reino Unido complicando a vida da L.Miller & Sons LTD. Miracleman foi então uma alternativa para que o público britânico continuasse, se não com Capitão Marvel, com um equivalente – e este foi publicado entre 1954 e 1959 pela editora com relativo sucesso.

A revista Warrior, da Quality Comics, decidiu reviver o personagem e pediu a Alan Moore para assumir o título. O que temos a partir daí é algo sem paralelo…

Uma revolução pode ser o termo ideal para definir este mesmo algo porque Moore não só toma para si a criação de Mick Anglo, mas a transforma em algo ampliado, grandioso: o que antes era uma versão ainda mais caricata do Capitão Marvel da DC Comics, se transforma em algo descomunal; se torna uma força da natureza.

Miracleman de Moore é, mais  que um personagem colorido de uma HQ, um experimento filosófico: o catalisador das diferentes inquietações que o próprio autor desenvolverá até ali no auge daqueles anos de Margareth Tatcher, tempo de desrespeitos ao meio ambiente e à vida… Um período que exigia uma perspectiva acerca do super-humano e o que este significaria naqueles tempos.

Por isso a fragilidade de Michael Moran e a urgência quando do ressurgimento do Miracleman depois que a palavra-chave “Kimota” fora pronunciada no primeiro arco desta fase. Mike Moran sai de cena para a chegada do super-homem, do übermensch ali representado e do que este espera para aquele mundo onde despertara.

Miracleman #1Alan Moore nos mostra uma de suas criações mais humanas mesmo que, ela, Miracleman, não o seja ou que, mesmo o sendo, a negue ao longo da trama, já que, durante os dezesseis números da saga vemos um ser humano abrindo espaço e morrendo para dar e ceder lugar a algo além.

Assim, tanto quanto em outras criações de Moore, é a chegada do novo que importa em Miracleman. O mesmo novo que, em Watchmen, era a busca por um fim das hostilidades belicosas de uma Guerra Fria fora de controle ou que, em A Saga do Monstro do Pântano, estava na descoberta de uma realidade conectada a um ser/deidade maior que a realidade.

Moore trabalhou por duas vezes com outro uma representação do übermensch nas HQs: com o Superman criou aquelas que são consideradas histórias definitivas do personagem. Porém, diferentemente do que acontece em Miracleman, Moore não invadira com suas idéias as perspectivas filosóficas que impregnam o superhumano. Este, por sua vez, é o mote de sua recriação em Miracleman

A alegoria de Moore ao recriar o personagem de Anglo, antes de tudo, procura refletir sobre o impacto do superhumano em uma hipótese frente ao mundo real – algo que o próprio Moore chegaria a experimentar posteriormente. Mas não só: do quão revolucionária esta presença seria à humanidade e quais saltos estas teria que dar para seguir.

Miracleman de Alan Moore finalmente foi publicado em sua totalidade por aqui. Mais uma vez, comprovamos o gênio do bruxo. A seguir, vejamos como a história criada pelo “Autor Original” – como o próprio Moore pediu para ser creditado nesta reedição da série, uma vez que ainda está às favas com a indústria das HQs – seguirá seu curso com Gaiman e outros.

O que posso dizer é que a série foi um daqueles achados indispensáveis e que me sinto feliz por poder ler mais essa obra-prima.

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Política

Luto é verbo, meus amigos. E a Democracia vale a luta…

Luto é Verbo!

Desconstrução, Desmonte, Dilapidação. Estes serão os termos daqui por diante. Com a saída de Dilma Rousseff da presidência através do “golpe constitucional” referendado neste dia 12 de maio pelo Senado brasileiro, o que vem a seguir é de todo previsível. As pistas estão dadas através dos noticiários e das páginas dos jornais e revistas: a primeira fase, a da desconstrução, deve iniciar-se imediatamente.

Para tanto, todas as “mazelas” das gestões petistas serão lançadas aos cães. Não importarão os avanços no Social e na inclusão, mas, antes, como forma de agrado ao mercado e à turba de beócios que espumavam – e espumam – pelo golpe, interessa demonstrar que as escolhas petistas fizeram a “máquina pública crescer demasiadamente”, que o governo interino de Temer deverá “cortar a própria carne” para “reduzir o tamanho do estado” e que a população em geral “deverá estar preparada para o sacrifício”. Este é o discurso para o mercado: para este, a desconstrução é urgente e imprescindível…

Teremos o desmonte. As conquistas das gestões petistas, após a descontrução, deverão ser desmontadas. O projeto Ponte para o Futuro do PMDB do interino Michel Temer descreve bem este caminho com sugestões para “privatizar tudo o que for possível”. A privatização é apenas um momento, antes, urgente para os interesses do mercado e da Casa Grande, é necessário desmontar: é no desmonte que conquistas como os institutos federais de educação tecnológica e as universidades públicas federais passarão por seus momentos mais difíceis.

O discurso será que esta estrutura não deve ser responsabilidade do Estado, mas, sim, do mercado: a iniciativa privada terá que assumir tal e, portanto, nega-se o direito à educação previsto constitucionalmente. O desmonte também passará pelos programas sociais, especialmente o Bolsa Família – que, como dito por alguns, deve ter seu espectro reduzido e atingir apenas 5% da população pobre do país. O desmonte nega a inclusão, o resgate. Ele, o desmonte, passa pelas empresas públicas também.

Esta é a etapa seguinte, a dilapidação. Não é de admirar que o foco seja a Petrobras. Mas, antes, as reservas do pré-sal. Não apenas: com a ascensão de Temer, tudo passa a ser mercadoria em um grande balcão de negócios. Não à toa, a grita do senador e agora ministro das Relações Exteriores, José Serra, mais encorpado e capaz de negociar lá fora o produto do desmonte. Na dilapidação, como na década de 1990, vão-se o que se pôde produzir no país, não só sua matéria-prima, mas a infraestrutura desenvolvida/recuperada pelas gestões petistas.

Assim, o momento não é de um governo fruto de conspirações e um golpe que chega ao poder, mas a derrota de uma Democracia que durante pouco respirou algo para os seus. O Brasil envereda novamente pelo caminho que a Casa Grande escolheu: não pelo voto dos seus, mas pela força daqueles que, derrotados e inconformados com a distância do poder, cresciam seus dentes para abocanhar a botija. Bem vindos a um outro país. Não o tal “país do futuro”, mas um acostumado a “repetir o passado”.

A nós, resta tão somente resistir. Sempre.

Luto é verbo, meus amigos. E a Democracia vale a luta…

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Política

A Democracia voltará, mas, antes, desce o pano e ela sai de cena…

Gosto de imaginar que isso que ora acomete nossa jovem democracia vai passar. Mas, de volta à realidade, pego pelas sempre tenebrosas transações dos nossos, sei que não é por aí…

O que hoje se desenrola no Senado da República, depois do espetáculo patético protagonizado na Câmara dos Deputados, é o fim da democracia. Não há outra maneira de dizê-lo. Nossa jovem democracia foi pega na esquina da realidade e neste exato momento é violentada enquanto nós, atônitos, apenas reclamamos uns dos outros.

Vai passar? Talvez. Provavelmente, não. Não porque sequer aprendemos o valor que tem o voto: e a prova disso é que, como eu, certamente você deve ter escutado alguém reduzindo a importância do ato de votar. O voto que, sabido, representa o que temos de mais valioso em tempos negros: a capacidade de decidir nossos caminhos.

Assim, o que mais me ofende nesta que tenho definido como uma “ópera bufa patética protagonizada por atores da mais baixa envergadura” é a percepção de que através de tal arranjo o voto, sempre ele, mais uma vez é ignorado.

Não me engano em pensar que nossos deputados e senadores têm em mente a percepção de que estão “corrigindo” aquela decisão tomada por 54 milhões de brasileiros que elegeu Dilma Rousseff: corrigem aqueles que consideram inaptos, ignorantes, infelizes, ingratos e outras visões que a Casa Grande insiste em pregar.

Amanheci hoje em uma democracia definhando, atraiçoada, vitimada por aquilo de pior produzimos desde muito. Uma democracia traída novamente pelos vermes de sempre.

Confesso que escrevo com um ódio dilacerante que golpeia incessantemente meu espirito; um ódio inexplicável por um povo que sequer sabe o valor que a Democracia detém; um ódio pela apatia e esta tal “cordialidade” que entorpece os sentidos e a noção de urgência de nosso povo – não aquele que veste verde e amarelo, mas os que se aglomeram nas periferias.

A Democracia brasileira vai dormir hoje. Como disse Chico, “sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”…

Mas, como o mesmo Chico Buarque disse certa vez, amanhã vai ser outro dia e os galos cantarão novamente: um após outro e, desse cantar, ela, a Democracia, voltará a brilhar e saberá afastar aqueles que a golpearam neste dia.

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Comics

Tudo morre. Nos quadrinhos, sempre; nas telas, não será diferente…

Painel de Secret Wars da Marvel Comics

Assisti há alguns dias a Capitão América: Guerra Civil. O novo filme do universo cinemático da Marvel Studios me surpreendeu, confesso, por mostrar-se uma das crias mais coesas desta nova leva de filmes e séries calcados no universo narrativo da Marvel Comics.

Entretanto, algo me chamou a atenção neste último filme – e também na segunda temporada de Demolidor: uma sutil e por vezes imperceptível escalada para o fim. Não o fim de toda a narrativa, mas as portas para uma escalada de conflitos que levará certamente à morte de alguns personagens.

Não, não é algo raro nos quadrinhos. Se levarmos em conta que a Marvel Comics liquidou de uma vez vários de seus “universos” ficcionais recentemente – procurem pelo arco “Tudo Morre” dos Novos Vingadores e vocês entenderão ou, mais ao final, no arco “O Tempo Se Esgota”, prelúdio para as novas Guerras Secretas -, nas telas a dinâmica aparentemente segue na mesma direção.

Há uma atmosfera de conflito iniciada com a tal Guerra Civil e que se desenvolverá mais e mais nos próximos filmes da franquia Vingadores, disso eu não tenho dúvidas. No entanto, resta saber quais cairão até lá. Tenho algumas apostas, mas, bem, prefiro não opinar até confirmar minha teoria…

A questão é bem simples, no entanto: o universo cinemático da Marvel Studios está se expandindo muito rapidamente e as diferentes frentes narrativas e seus personagens parecem culminar para algo grandioso. Conhecendo bem a editora, não seria estranho que em tal processo de expansão alguns personagens terminassem fora do caminho. Vejam bem: não os mais emblemáticos, mas aqueles que estão à margem e, em algum caso especial, algum grande para dar uma “engrenada” no drama…

A verdade, creio, é que a temporada mortífera para alguns personagens deste tal universo cinemático poderá começar com a estréia da primeira parte Vingadores: Guerra Infinita, em maio de 2018: de longe o primeiro grande evento que a Marvel Studios pretende levar a cabo.

A partir daí, creio, será uma sucessão de grandes eventos e produções em diferentes meios que culminarão em uma grande e espetacular catarse. Uma catarse que, é certo, desagradará muitos fãs deste universo audiovisual elaborado pela Marvel, mas que, algo relativamente comum aos que acompanham as Histórias em Quadrinhos, não causará tanta surpresa entre os que conhecem algo do universo impresso da editora.

Não é que seja uma surpresa, mas o universo cinemático da Marvel Studios é apenas mais um. Tudo o que acontece nele, bem, está distante daqueles desenvolvidos em outros meios. A morte, neste contexto, é também renovação. Vejamos até quando a Marvel Studios seguirá até que tudo morra.

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Artigos, Música

Regravando, refazendo…

Nunca escutei a Taylor Swift. Não por nada, mas ela não é o tipo de musa pop que me chama a atenção. Em algum momento a Madonna fez isso; nos anos 1990-2000, a Britney Spears também. Mas, mais que elas, a maneira como alguns grupos que admiro se apropriaram das canções destas musas me levaram a perceber algo além.

Versões como Like a Virgin ou Baby, One More Time, pelos escoceses do Teenage Fanclub e Travis, ou mesmo a desconstrução que os moços do Sonic Youth promoveram ao (sub)verter o clássico Into The Groove de Madonna ou Superstar dos Carpenters, me permitiram atentar para este flerte entre o pop e as diferentes variantes do rock’n’roll. Não tenho nada contra covers, mas, pela profusão de discos dedicados às releituras de outros artistas, vivemos um momento interessante…

Experiências como aquelas protagonizadas pelo Flaming Lips – com releituras de clássicos como The Dark Side of The Moon ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – ou mesmo outras ainda mais inspiradas como o The Walkmen decidira regravar o álbum Pussy Cats de Harry Nilsson, para ficar em exemplos recentes, não são novidade, se considerarmos que já na década de 1970 Booker T. & The M.G.’s desmontaram um clássico como Abbey Road, dos Beatles, e nos entregaram com algo ainda mais brilhante: seu McLemore Avenue.

Voltando ao início, nunca me interessei pela sonoridade de Ms. Swift. Mas, confesso, a curiosidade me motivou a conferir o que canadense Ryan Adams fizera ao regravar 1989, álbum mais recente da moça, e imaginar o quão estranha esta combinação seria. Na verdade, fui surpreendido…

A surpresa foi por perceber que aquele disco que sequer escutara na voz de sua dona – exceção das onipresentes Shake It OffBad Blood – me parecera algo especial.

 

 

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Cinema, Crítica

A Bruxa não é somente um filme de terror, mas uma indicação para o futuro do gênero

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Há o pecado. Antes dele, o pecado original e a noção de que todos os que creem carregam as marcas deixadas nos primeiros que com ele se viram marcados. A Bruxa, filme de Robert Eggers, é sobre homens pecadores e os descaminhos que estes tomam buscando negar, ignorar, contornar ou, não raro, aceitar seus pecados. Não, não é tão somente um filme de terror – está até distante disso -, mas, antes um filme sobre o temor…

Tudo começa quando uma família de puritanos é excomungada da comunidade onde vive em algum momento da colonização da América do Norte no Século , a esta só resta aceitar seu destino e seguir seu caminho em busca de seu próprio lugar naquele reino selvagem.

Assim, o patriarca William e sua mulher Katherine levam seus filhos Thomasin, Caleb, os gêmeos Mercy e Jonas e o pequeno Samuel para algum lugar onde possam construir seu paraíso. Mas este paraíso está maculado. Não pela bruxa que se esconde em um casebre na floresta, mas, sim, por aqueles que compartilham aquele pequeno pedaço de terra.

Os primeiros minutos que mostram as orações de Thomasin, a jovem que pede perdão por seus pecados, por sua arrogância, por seus desejos, é apenas o aperitivo do desenrolar de eventos que começam com o sequestro do bebê Samuel – arrastado pela Bruxa até seu esconderijo e sacrificado por ela.

A presença do mal se torna a preocupação da família: o mal escondido, sorrateiro e sombrio que habita a floresta os assusta, mas aquele que carregam individualmente, bem, este se desenrola e ganha as telas enquanto a tensão em A Bruxa torna-se mais e mais densa – até o ponto que temos a impressão de poder rasgá-la com os dedos.

Poster de "A Bruxa" de Robert Eggers.

Poster de “A Bruxa” de Robert Eggers.

Quando descobrimos as mentiras de William, os desejos de Caleb pela beleza que aflora de Thomasin, da insolência dos gêmeos e da arrogância da matriarca Katherine, estamos diante dos pecados silenciosos de cada um daqueles. O mal os envolve e este explodirá em algum momento.

O diretor Robert Eggers foi particularmente feliz em criar esta pequena alegoria do mal e de como este cobra seu preço. Elementos como roteiro, fotografia e direção de arte nos conduzem através desta jornada à perdição completa e ver esta família derrotada é a grande lição que A Bruxa nos entrega: a derrota como resultado da hipocrisia, da falta de apreço, da negação do mal, me parece o que norteia o longa de Eggers.

Para além, A Bruxa certamente motivará as mais acaloradas discussões, mas, sem medo de cometer um equivoco, posso afirmar que o filme ingressará entre aqueles de seu gênero: do horror calcado nas componentes psicológicas mais profundas, mesmo que o inusitado, o sobrenatural, o indizível esteja lá à espreita.

O diabo, como sempre, está no detalhes e em A Bruxa persistem os detalhes que tornam-no um dos melhores longas de suspense/horror já produzidos.

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