Artigos, Televisão

As séries televisivas para além dos enlatados…

Breaking BadPertenço à geração que conviveu com a cantilena insuportável de que as séries de TV representavam uma forma estranha de anestesia e dominação coletiva destinada a contaminar e desvirtuar espectadores da América Latina e a transformar os cérebros destes em poleguinho – tem até música da Legião Urbana que aborda o tema, para termos uma idéia do drama…

Porém, quem nunca encarou um “enlatado americano”, que atire a primeira pedra… Sou fã de séries de TV desde os tempos em que falar sobre elas em círculos de amigos era um pecado mortal e posso afirmar que elas, as séries, integram meus referenciais sobre narrativas audiovisuais com demasiada relevância.

Como desconsiderar o impacto cultural televisivo de séries como Arquivo X Millennium ou Twin Peaks – algumas delas apontadas como fundamentais para o cenário atual do drama audiovisual-televisivo? Para Brett Martin, autor de Homens Difíceis – livro que traça uma cronologia desta recente Idade de Ouro da TV -, o momento-zero da revolução atual que vivenciamos com as séries de TV se dá em algum momento entre Oz, Sex And The CityOs Sopranos. À sua maneira, cada uma destas estabeleceram as bases para as mudanças que ora vivenciamos nas telas de nossas tevês – e, mais, para além destas.

Assim, discutir o lugar ocupado pelas séries de TV entre as diferentes formas audiovisuais implica reconhecer a dimensão complexa e as diferentes transformações que alteraram o entorno desta forma de entretenimento: produções recentes como Mad MenBreaking BadGame Of Thrones ou True Detective – para ficarmos em algumas – evidenciam a revolução nas narrativas dramáticas audiovisuais que, mesmo voltadas preferencialmente para a TV, ultrapassam os limites desta, escorregam por entre os dedos de tal meio e oferecem novas possibilidades para este…

The Sopranos - Photo Credit: Will Hart / HBO

The Sopranos – Photo Credit: Will Hart / HBO

Estas narrativas dramático-televisivas têm contribuído não apenas para expandir nossos modos de consumir/ver TV, mas, ainda, oferecem possibilidades e desafios para aqueles que produzem conteúdos para tal mídia: da expansão das narrativas em diferentes ambientes/formatos ou da experimentação destas em outros e igualmente diversificados suportes, um dos principais desafios aos criadores tem sido o de flertar, convencer e cativar espectadores em tempos de completa diversidade em um ecossistema de experiências comunicacionais complexas; de fazê-los compreender e torná-los participes de um ambiente ecológico-comunicacional com diferentes nuances e artefatos.

É fato que produções como Os Sopranos, para ficarmos em um dos estopins desta nova fase das séries, contribuíram ao estabelecimento de uma revolução para o meio: até meados da década de 1990 do século passado, o drama televisivo representava  um espaço para os iniciados, um artefato cultural menor frente, por exemplo, ao Cinema. Produções como Os Sopranos ou, algo mais recente, True Detective impulsionam não apenas um meio/mídia mas engendram através das telas o estabelecimento de uma linguagem ampliada e elaborada que expande o gênero ficcional-televisivo.

Esta é a lógica que ora transforma a tevê e o mundo das séries: como quando uma proposta como a do Netflix e sua lógica do streaming audiovisual explicitam os caminhos/descaminhos da narrativa ficcional dramático-televisiva contemporânea fazendo a experimentação de um produto audiovisual ultrapasse a tela do televisor e, a partir de outras telas, de outras formas de experimentar possíveis, de outros meios de chegar aos seus, possibilitem a expansão de um artefato cultural, de seu consumo adaptado e de sua recontextualização.

Os serviços de streaming audiovisual e os canais por assinaturas das redes a cabo de televisão vêm despontando como as pontas de lança desta transformação. Os investimentos de grandes como a Amazon – que decidira criar seu próprio núcleo de produção dedicado às narrativas ficcionais seriadas – ou AMC provam que o gênero ainda não encontrou maiores limitações. Assim, ainda é cedo para estimar com clareza o impacto e a profundidade deste na expansão protagonizada por esta nova idade de ouro da televisão, porém podemos afirmar que as narrativas ficcionais televisivas vêm expandindo os modos e a própria indústria da TV.

 

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