Cinema, Crítica

O Coringa e seu inegável Eterno Retorno…

Vejam… Durante muito, o Coringa de Alan Moore para A Piada Mortal, considerado por muitos a HQ definitiva acerca da relação do personagem com o Batman. O conto de Moore é uma história de fundação para o personagem e se juntava a várias outras leituras que estabeleciam o personagem como o vilão definitivo, a contraparte tanto de Bruce Wayne e do próprio Batman: uma força incontrolável – e que ao mesmo tempo levantava dúvidas sobre a capacidade do cruzado embuçado de derrotá-lo.

Nas telas, o Coringa ganhou algumas leituras…

Na TV, César Romero e sua caricatura insana para o personagem na série do Batman da década de 1960 foi fundamental para o estabelecimento de uma lógica particular: a do palhaço alucinado e, mesmo louco, capaz de tirar gargalhadas por suas tiradas. Aquela era a lógica e esta dialogava com as HQs – estas reprimidas por um código de conduta que restringia os limites do personagem.

Mas tal código de conduta perderia o sentido com o fim dos anos 1970 e a renovação que se seguira com os anos 1980-1990…

É a partir daí que a imagem do Coringa começa a ser dissecada/construída em diferentes aventuras – desde A Piada Mortal (1988), de Alan Moore e Brian Bolland, passando por Morte em Família (1988-1989), de Jim Starlin e Jim Aparo, e chegando a Asilo Arkham (1989), de Grant Morrison e Dave McKean – que de certa maneira estabeleceram as fundações do personagem no período pós-Crise nas Infinitas Terras e estas se estabeleceram como que alinhadas com as premissas distópicas estabelecidas por Frank Miller para o Batman e seu principal adversário em O Cavaleiro das Trevas (1986).

É nesta transição pós-Crise que o Coringa assume suas facetas mais assustadoras e emerge como uma força dona de uma identidade multifacetada e, ao mesmo tempo, cativante – não sendo por acaso que o personagem dispute o coração dos fãs do Batman como uma de suas forças primordiais (algo que desagua de certa forma na visão proposta para o personagem por Scott Snyder em Morte da Família, arco de 2012 em que o Coringa ataca toda a bat-família buscando destroçá-la.

Algo que fica claro ao longo das décadas de aventuras do Batman contra seu maior inimigo é que ele, o Coringa, sempre volta. Seja caindo de um helicóptero, baleado fatalmente, preso no Arkham, desaparecendo nas águas ao redor de Gotham ou qualquer outro evento que o tire de cena, é certo que ele retornará para mais um embate.

Podemos dizer que o Coringa nas telas lida com a mesma dinâmica: um eterno retorno, como se cada uma de suas encarnações nas telas funcionasse como elementos em constante complementação/expansão: a loucura niilista do personagem em um filme se recombina com a resistência ao real e seus atores em outro. O Coringa sempre retorna em busca de uma nova chance.

Este me parece o ponto deste novo filme. O Coringa que lá está interpretado de modo brilhante por Joaquin Phoenix é impecável, mas distinto daquele de Heath Ledger ou o de Jack Nicholson: aqueles são outros Coringas que alimentam e emprestam algo a este último; outros Coringas, cada qual com suas peculiaridades, atribuindo sentidos ao mesmo sujeito.

O Coringa de Joaquin Phoenix não é menos potência que aquele de Heath Ledger ou Jack Nicholson: cada um desses intérpretes contribuíram para uma identidade fílmica do personagem. Porém, a interpretação de Phoenix para o longa de Todd Phillips lida com outros demônios: a gênese de Arthur Fleck no grande vilão que é o Coringa é um mergulho na psiquê de alguém que adoece ante o mundo, o real e este adoecer o faz implodir.

Fleck cai e ao levantar-se o faz como o Coringa. O personagem levanta tanto como ofensa quanto ofendido e quer a desforra. O enlouquecer de Fleck, demonstrado em diferentes cenas e que culmina com a gênese do Coringa, guarda profundas semelhanças com aquele do protótipo de gangster sem-nome que mergulha em uma piscina de reagentes químicos para escapar do Batman em A Piada Mortal de Alan Moore: temos uma dinâmica semelhante que nos envolve no adoecer de ambas as versões de um mesmo sujeito.

Por isso que a versão de Ledger é a de outra faceta para o mesmo palhaço; por isso que a de Nicholson dialoga com outra face do mesmo personagem – aquela espalhafatosa e cômica dos anos 1960 de modo mais evidente. O Coringa de Phoenix e Phillips nos apresentara uma grande história de fundação que nunca fora contada até aqui – seja nas telas ou nos quadrinhos.

O grande mérito deste Coringa de Phonix é que a tela ficou pequena para a explosão de emoções que nos envolve, forçando-nos a discutir o quão grandiosas foram diferentes personificações de um mesmo papel. Esta não é uma versão definitiva para o personagem, mas seu recomeço que recolhe elementos de todos que vieram antes dele.

Este é mais um dos muitos retornos de um vilão à espera de seu nemesis… Um retorno triunfal e peculiar; um sério retorno em um sério mundo, diga-se.

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“Dummy” do Portishead completa vinte e cinco anos urgente e viçoso como nunca…

Estou ficando velho… Verdade, estou. Não lembro quando ouvi Dummy do Portishead pela primeira vez: pra falar a verdade, creio ter começado a ouvir a banda em algum momento dos anos 1990 enquanto me enterrava nas noites de domingo vendo o que diabos o Fábio Massari tirava da cartola no Lado B MTV

Creio que foi Numb, mas juro não ter certeza. Só lembro da garotinha cantando junto com a Beth Gibbons e como aquilo era, ao mesmo tempo, estranho, moderno e desconfortavelmente lindo. O Portishead se tornou, a partir daquele instante, uma das minhas obsessões da segunda metade dos anos 1990: precisava ouvir/ver/ter tudo o que eles produziriam/produziram porque, bem… Porque sim!

Dummy é de 1994. Naquele ano, em Natal, no Rio Grande do Norte, ainda estávamos embalados pelas camisas de flanela do Grunge e que tais. Como expliquei, só viria a prestar atenção ao Portishead através dos vídeos que pescava no Lado B MTV sob a batuta do Fábio Massari. É provável que tenha ouvido o disco pela primeira vez entre 1997 e 1998: mas, naquele ano, já tínhamos em rotação o Portishead, segundo disco da banda de Madame Gibbons e sua trupe.

Portishead, o disco, é tão brilhante quanto Dummy, mas a urgência do primeiro se sobressai. Era jazzy, moderno, um salto à frente de seu tempo: não tínhamos idéia do que diabos era trip hop ou o quão a música eletrônica evoluiria a partir dali, mas aquele disco soturno, com uma capa azulada e que trazia o frame de um curta – To Kill a Dead Man, para ser mais exato – que a banda produzira para lançar o álbum, era tudo o que mais queríamos ouvir…

Dummy completa 25 anos. Incrível como aquele primeiro disco do Portishead envelheceu bem, mantendo todo seu viço e frescor. Parabéns a Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley por brindar-nos com um trabalho tão belo e consistente: vocês não têm a menor idéia de quantas noites e tragos foram acompanhadas por esta obra-prima que vocês puseram no mundo…

Ainda espero poder ter a companhia desta maravilha por mais outros vinte e cinco anos…

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Cinema, Crítica

O estranho vôo da distópica Bacurau.

Ok, é distopia sim…

Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é uma distopia daquelas que reviram sua cabeça de um modo único, mas é também dessas que se enredam e enviesam esses nós chamados tradição e modernidade. Direi que o filme é um nó cego repleto de elementos que despontam da tela, nos interrogam sobre nosso lugar/ser atual e nos obriga à tomada de posição. E, antes, Bacurau não é um filme para que muitos compreendam suas camadas subtextuais, mas muitos o verão porque esperam muito da experiência que ele oferece.

Há um jogo em Bacurau. Sim, os vilões, os forasteiros, estão lá naquela comunidade no meio do nada do sertão nordestino para um jogo sanguinário: temos um grande battle royale ao ar livre em que os estrangeiros, ajudados po uns fulanos do sudeste, preencher seus vazios individuais com uma boa dose de ultraviolência.

Sim, amiguinhos: a laranja do titio Burguess é descascada para dar lugar ao suco psicodélico da trama orquestrada por Kleber e Juliano…

Cartaz de Bacurau de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Porém, neste caldeirão alucinante, os forasteiros e os sudestinos não contavam que uma comunidade nos rincões do sertão detêm e cultivam seus vínculos, sua identidade, seus valores… Bacurau, para além de uma distopia, versa sobre o tecido que nos une, que nos identifica e que nos leva à tomada de ação, do revide — como na sensacional de/referência a John Carpenter e seu Assalto à 13ª DP —  e não é obra do acaso que as reações de todos os personagens do longa sejam, ao mesmo tempo, violentas e de uma busca urgente pela autopreservação comunitária, vide a reação ao playboizinho prefeito da cidade onde a comunidade de Bacurau está inserida.

Por outro lado, é provável que você não tenha se dado conta, mas o pássaro que empresta seu nome ao filme, o tal bacurau, como bem cantou Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, aquele que encarnou a imagem deste nordeste que não se dobra, é uma ave de rapina que “pega, mata e come”: o povo de Bacurau entende que sua voracidade hiperindividual deriva, sim, daquela ave que observa, ronda e ataca/devora sua presa. É por isso que buraco que Lunga e seus parceiros cavam para a tocaia contra os forasteiros — e no qual “enterram” um dos prisioneiros — reflete este lugar que devora suas presas e que, sim, pega, mata e come.

A dinâmica da identidade de autopreservação comunitária se insurge ainda mais vigorosa quado dois dos tais forasteiros gamers deste PUBG de carne e osso ambientado em Bacurau resolvem partir para cima de um casal de anciãos… Sim, eles vêem o casal de curandeiros da comunidade como velhos prontos para o abate, mas, para surpresa de uma estupefata garota com os dedos reduzidos a nacos após ver a cabeça de seu companheiro explodir como uma melancia, o casal de velhos era uma dupla de trabucos fumegantes nas mãos: são bacamarteiros e não apenas moradores de uma comunidade dos rincões nordestinos, mas guardiões de uma tradição que se contrapõe a modernidade louca de seus jogos.

E é assim que Bacurau se transforma em um emaranhado de subtextos que, reunidos, mais que contar uma alegoria da resistência de uma comunidade contra o arbítrio, narra muito sobre os nossos dias e sobre o que nos aguarda em um futuro possível. Para os desavisado, uma das chaves que transformam qualquer distopia em uma “visão do possível” é a amplificação do real às raias do absurdo e do non-sense todas promovem.

Sim, Bacurau é uma distopia: daquelas que nos assombram, nos ensinam e nos previnem sobre o que está por vir.

Como já disseram, Bacurau é barra!

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Sobre a vertigem…

Confesso que tudo o que me resta por dentro após assistir o documentário Democracia em Vertigem da diretora Petra Costa é tão somente desprezo e o mais cristalino, frio e nada incômodo ódio. O longa desvenda muito o que estamos a sentir nas últimas semanas, mas, pior, revela que as razões para os que, iguais a mim, questionavam esta tragédia farsesca, compreendiam a verdade oculta que nos atormenta.

O ponto de partida do longa de Petra é preciso: a esperança…

Aquela esperança que a todos envolveu e que brotou quando eleição de Luis Inácio “Lula” da Silva em 2002; uma que nos conduzindo com materialização de alguns anseios nos primeiros mandatos; a mesma esperança que nos fez ver uma mulher eleita presidente pela primeira vez em um país machista, misógino e canalha como este.

Uma esperança que sucumbe à tristeza e decepção que minara, desestruturara e destituira Dilma Roussef da presidência em 2016. Em seu lugar, sentimos o asco contínuo pelo que é colocado ilusoriamente: um governo de homens brancos, velhos… Ascende, no lugar de quem fora eleita pelo povo, um governo originado por um “grande acordo nacional com o Supremo e tudo” que procurará reestabelecer a “tradição” desigual de um país desigual e autoritário.

O filme de Petra Costa é feliz por mostrar nossos descaminhos, nossa tristeza, nossas mazelas e a distância irreconciliável que ora nos separa: Democracia em Vertigem é feliz ao demonstrar que ainda estamos longe de qualquer diálogo ou conciliação porque quem poderia trazer tal conciliar está preso por ousar desafiar as dinâmicas que sempre serviram para nos identificar como país.

“O retrato da nossa queda e de como esta ainda não terminou” poderia ser o resumo deste documentário que nos supre com imagens e falas poderosas capazes de traduzir a tristeza que nos une e o incômodo silêncio que nos envolve.

Silêncio. Ele está presente em todo o filme. Petra Costa dosa este mesmo silêncio com uma fotografia arrebatadora e momentos que pedem este mesmo silêncio para que possamos entender o que se mudou em nosso seio. Democracia em Vertigem demorará a ser superado como a mais fiel tradução dos anos em que a desesperança nos solapou.

Parabéns a Petra Costa por nos mostrar que ainda temos um longo caminhoa percorrer.

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Cinema, Crítica

Na dúvida, fico com o filme. Mas, bem, prefiro “Atlanta”…

Nas intenções, Cara Gente Branca da Netflix parece uma boa série. Parece. O que temos no fim, bem, é uma série que desmorona em seus episódios – e não pensemos sequer em compará-la com sua contraparte cinematográfica porque aí a coisa fica ainda mais complicada. Mas, partamos inicialmente de seu principal motor: a discussão das tensões raciais contemporâneas nos EUA hoje. Se tomarmos tal premissa e compararmos Cara Gente Branca com séries como Atlanta, por exemplo, a discussão sobre tais tensões desmancha a olhos vistos.

Estão lá, claro, todos os temas complexos e dolorosos da questão racial nos EUA, mas, bem, o que resulta na tela mais parece uma mescla entre Faça a Coisa Certa com As Patricinhas de Beverly Hills – sim, exagerei, mas este é o ponto. A série peca por uma diluição desnecessária deste tema em diversos sub-núcleos narrativos que, mais que apresentar a complexidade do problema, o dilui. Sim, sim: temos a diluição narrativa como estratégia para percepção do problema central – mas, novamente, nem digamos que a série estica à estratosfera uma trama que se resolve em um longa…

Para muitos, a discussão suavizada e embalada em termos mais “acessíveis” ajuda da disseminação dos tópicos essenciais do problema; a meu ver, pasteuriza e relativiza a questão. Cara Gente Branca move a engrenagem da relativização das discussões sobre raça e suas tensões um pouco mais para diluição. Em seus episódios, o racismos se transforma em pano de fundo praticamente disperso e dá lugar a diferentes abordagens caricaturais do “American Way of Life”.

Creio que, mais que discutir abertamente questões cruciais desses dias bastantes estranhos, “Cara Gente Branca” plastifica, torna homogênea e relativiza tais questões. Este processo, sim, algo que emerge da série.

Na boa, não perca seu tempo: veja “Atlanta” do Donald Glover. Esta, sim, uma série que importa em muitos sentidos…

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Cinema, Crítica

O live-action de Ghost in The Shell é somente casca: não há “fantasma”…

O anime Ghost in The Shell, de Mamoru Oshii e lançado em 1995, é uma bomba filosófica. Não por acaso, filmes como Matrix ou Ex-Machina beberam diretamente do longa ao discutirem questões como inteligência e consciência artificiais: os dilemas e reflexões encerrados naquele filme reverberam até hoje e sua influencia é visível tanto em filmes quanto em séries contemporâneas e, creio, esta é uma componente valida a considerar quando nos deparamos com o remake do diretor britânico Rupert Sanders.

O Vigilante do Amanhã, mesmo investindo em um elenco estelar e num trabalho de arte impecável buscando transpor muitos dos elementos que atravessam o anime, falha quando investe em uma construção narrativa alinhada ao esquema típico dos blockbusters hollywoodianos contemporâneos. A opção do diretor resulta em algo vazio, sem sentido, sem alma…

O remake de Sanders é tão somente um apanhado visual impecável que tenta atribuir substância a uma reunião de elementos narrativos fáceis, conflitos simplórios e termina tão somente por nos apresentar algo esquemático, superficial e irrelevante. Conceitos caros ao anime de Oshii terminam subvertidos ou, melhor, diluídos em um arremedo que se pretende palatável. Não é isso o que termina na tela, mas justamente seu contrário: um longa risível para os, como eu, fãs do longa de 1995; um filme de ação caótico e superficial, mas funcional para os que se importam menos com a narrativa e mais com o visual.

Assim, considero que o filme não tem um “fantasma” que o sustente em pé,  mesmo a presença de um elenco de peso – com Scarlett Johansson, como a Major Motoko como seu principal nome -, incapaz de impedir a queda vertiginosa da trama. Nomes como Takeshi Kitano e Juliette Binoche, também utilizados quase que superficialmente, se mostram aparentemente perdidos em uma espiral sem sentido que desfigura o anime completamente.

Quando digo que não há “fantasma” em O Vigilante do Amanhã é porque lhe falta alma, substância. O filme é um espetáculo visual e muitos dos elementos visuais apresentados no anime – a versão realista de uma futura e tecnologicamente caótica Hong Kong impressiona – convergem e surpreendem quem espera tão somente por uma transposição do anime ao live-action, mas é só.

No fim, nos resta tão somente a casca. E justo sobre isso, é a predominância de tal casca que cobra um preço caro ao filme quando restam apenas diálogos constrangedores em sua superficialidade – a discussão sobre o “fantasma” entre a Major (Johansson) e a Dra. Ouelet (Binoche) é risível de tão rasa – e um roteiro frágil. O que sobra do peso sobre tal casca se transforma em trunfo frente à fragilidade da trama porque, visualmente, o filme apresenta tudo o que um fã do anime poderia esperar – descontada a história.

Não pretendo aqui tomar seu tempo explicando, por exemplo, a história de Ghost in The Shell: qualquer pesquisa rápida no Google resolve esta questão na boa. Tão pouco pretendo minar seu desejo por ver o remake, mas, antes, gostaria apenas de alertar que, independente da ordem, ver o anime de Oshii ou o remake de Sanders fará com que você veja ambos os filmes com outros olhos.

Para o bem ou para o mal, afinal, nosso “fantasma” pede sempre por mais e mais.

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Cinema

Rogue One é o retorno ao primordial em Star Wars

Jyn Erso (Felicity Jones)

Sim, Rogue One: Uma História de Star Wars é de longe um dos melhores filmes produzidos pela franquia criada por George Lucas. O longa, dirigido por Gareth Edwards, não se faz de rogado frente a seu antecessor – Star Wars: O Despertar da Força – e, pasmem, supera em muito a narrativa cuja continuidade foi dada por J.J. Abrams.

Vejam, para além dos três longas originais, Rogue One é surpreendente por apresentar uma aventura que até então encontrava-se perdida entre as linhas que introduzem o quarto episódio da saga – Star Wars: Uma Nova Esperança. Ao contar a história de um grupo de párias que se une para obter os esquemas secretos de construção da estação de batalha do Império conhecida como Estrela da Morte, Edwards nos permite preencher algumas das lacunas da narrativa.

O resultado em Rogue One é que nos colocamos diante de um longa que lida sobretudo com a familiaridade dos fãs com os episódios originais da saga, fazendo com que recuperemos quase que imediatamente toda a sucessão de eventos que culminarão em O Despertar da Força. Para além disso, o drama vivenciado pela história de Jyn Erso (Felicity Jones) e seu grupo nos enche de empatia por aquele esforço brutal.

Cartaz de Rogue One: Uma História de Star Wars

Tal drama começa com o abandono de Jyn por seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen), logo nos minutos iniciais do filme, sendo este levado por Orson Krennic (Ben Mendelsohn), diretor de pesquisa avançadas em armamentos do Império para atuar em um projeto considerado definitivo.

Depois de esconder-se e ser resgatada pelo rebelde extremista e veterano das Guerras Clônicas Saw Guerrera (Forest Whitaker), Jyn é recrutada pela Aliança Rebelde para que reencontre seu pai. Na verdade, uma cortina de fumaça para que Cassian Andor (Diego Luna) execute o pai de Jyn. Entretanto ambos não contam com a revelação de que Galen criara a Estrela da Morte com uma falha capaz de destruir a estação de combate.

E este se transforma do mote da missão de Jyn e demais párias: encontrar os esquemas de construção da estação e transmití-las à Aliança Rebelde para que possa eventualmente destruí-la. Uma missão suicida.

E é neste contexto que temos uma homenagem: Rogue One é sobretudo um tributo a Akira Kurosawa e seu filme Os Sete Samurais. Não por acaso, uma das inspirações de George Lucas quando da idealização de sua saga: os elementos da cultura japonesa e da construção narrativa de Kurosawa atravessam Star Wars.

Os párias que se reúnem para lutar contra o adverso cientes do preço de tal ação é o mote de Os Sete SamuraisRogue One dialoga com isso a cada momento – seja na resistência de K-2s0 (Alan Tudyk), no sacrifício de Chirrut Îmwe (Donnie Yen), até a sequência final – e é assim que temos a representação de algo muito caro ao longa de Kurosawa e presente na produção de Gareth Edwards: abnegação em troca de esperança.

Este foi o mote para a obra-prima de Akira Kurosawa; este é o mote para Rogue One: Uma História de Star Wars.

Talvez por isso o longa tenha ganho um local privilegiado entre os filmes da franquia: aqueles que realmente souberam traduzir a essência do cinema em sua plenitude; aqueles que sabem como contar uma história e cativar suas audiências.

O longa de Gareth Edwards está inscrito desde já entre esses.

 

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Comics, Crítica

Miracleman briga de igual para igual com Watchmen… Aceitem!

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O título é uma provocação. Mas depois de ler o último volume da fase Alan Moore à frente de Miracleman – milagrosamente publicada pela Panini Comics no Brasil -, a provocação fará sentido…

Não tenho dúvidas de que, sim, a colaboração de Moore em Miracleman pode ficar anotada como uma daquelas obras-primas jamais produzidas para as Histórias de Quadrinhos.

Uma obra-prima que alimenta e é percebida através dos ecos, de sua reverberação através de outras obras igualmente únicas de Moore. A voz que alimenta a narrativa de Miracleman ao longo dos três arcos canônicos – Sonho de VoarA Síndrome do Rei Vermelho Olimpo – de Alan Moore se mostra presente em momentos tão diferentes quanto próximos: WatchmenA Saga do Monstro do Pântano ou mesmo uma série interrompida em seu nascedouro como Big Numbers trazem elementos que podemos atribuir à experimentação que alimenta Miracleman.

Capa de Miracleman #15, publicada no Brasil pela Panini Comics

Capa de Miracleman #15, publicada no Brasil pela Panini Comics

Os três arcos de Alan Moore à frente do personagem resultam de uma revolução: o personagem criado por Mick Anglo na década de 1950 foi uma saída para um imbróglio internacional quando a DC Comics decidiu deixar de publicar histórias do Capitão Marvel no Reino Unido complicando a vida da L.Miller & Sons LTD. Miracleman foi então uma alternativa para que o público britânico continuasse, se não com Capitão Marvel, com um equivalente – e este foi publicado entre 1954 e 1959 pela editora com relativo sucesso.

A revista Warrior, da Quality Comics, decidiu reviver o personagem e pediu a Alan Moore para assumir o título. O que temos a partir daí é algo sem paralelo…

Uma revolução pode ser o termo ideal para definir este mesmo algo porque Moore não só toma para si a criação de Mick Anglo, mas a transforma em algo ampliado, grandioso: o que antes era uma versão ainda mais caricata do Capitão Marvel da DC Comics, se transforma em algo descomunal; se torna uma força da natureza.

Miracleman de Moore é, mais  que um personagem colorido de uma HQ, um experimento filosófico: o catalisador das diferentes inquietações que o próprio autor desenvolverá até ali no auge daqueles anos de Margareth Tatcher, tempo de desrespeitos ao meio ambiente e à vida… Um período que exigia uma perspectiva acerca do super-humano e o que este significaria naqueles tempos.

Por isso a fragilidade de Michael Moran e a urgência quando do ressurgimento do Miracleman depois que a palavra-chave “Kimota” fora pronunciada no primeiro arco desta fase. Mike Moran sai de cena para a chegada do super-homem, do übermensch ali representado e do que este espera para aquele mundo onde despertara.

Miracleman #1Alan Moore nos mostra uma de suas criações mais humanas mesmo que, ela, Miracleman, não o seja ou que, mesmo o sendo, a negue ao longo da trama, já que, durante os dezesseis números da saga vemos um ser humano abrindo espaço e morrendo para dar e ceder lugar a algo além.

Assim, tanto quanto em outras criações de Moore, é a chegada do novo que importa em Miracleman. O mesmo novo que, em Watchmen, era a busca por um fim das hostilidades belicosas de uma Guerra Fria fora de controle ou que, em A Saga do Monstro do Pântano, estava na descoberta de uma realidade conectada a um ser/deidade maior que a realidade.

Moore trabalhou por duas vezes com outro uma representação do übermensch nas HQs: com o Superman criou aquelas que são consideradas histórias definitivas do personagem. Porém, diferentemente do que acontece em Miracleman, Moore não invadira com suas idéias as perspectivas filosóficas que impregnam o superhumano. Este, por sua vez, é o mote de sua recriação em Miracleman

A alegoria de Moore ao recriar o personagem de Anglo, antes de tudo, procura refletir sobre o impacto do superhumano em uma hipótese frente ao mundo real – algo que o próprio Moore chegaria a experimentar posteriormente. Mas não só: do quão revolucionária esta presença seria à humanidade e quais saltos estas teria que dar para seguir.

Miracleman de Alan Moore finalmente foi publicado em sua totalidade por aqui. Mais uma vez, comprovamos o gênio do bruxo. A seguir, vejamos como a história criada pelo “Autor Original” – como o próprio Moore pediu para ser creditado nesta reedição da série, uma vez que ainda está às favas com a indústria das HQs – seguirá seu curso com Gaiman e outros.

O que posso dizer é que a série foi um daqueles achados indispensáveis e que me sinto feliz por poder ler mais essa obra-prima.

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Artigos, Música

Regravando, refazendo…

Nunca escutei a Taylor Swift. Não por nada, mas ela não é o tipo de musa pop que me chama a atenção. Em algum momento a Madonna fez isso; nos anos 1990-2000, a Britney Spears também. Mas, mais que elas, a maneira como alguns grupos que admiro se apropriaram das canções destas musas me levaram a perceber algo além.

Versões como Like a Virgin ou Baby, One More Time, pelos escoceses do Teenage Fanclub e Travis, ou mesmo a desconstrução que os moços do Sonic Youth promoveram ao (sub)verter o clássico Into The Groove de Madonna ou Superstar dos Carpenters, me permitiram atentar para este flerte entre o pop e as diferentes variantes do rock’n’roll. Não tenho nada contra covers, mas, pela profusão de discos dedicados às releituras de outros artistas, vivemos um momento interessante…

Experiências como aquelas protagonizadas pelo Flaming Lips – com releituras de clássicos como The Dark Side of The Moon ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – ou mesmo outras ainda mais inspiradas como o The Walkmen decidira regravar o álbum Pussy Cats de Harry Nilsson, para ficar em exemplos recentes, não são novidade, se considerarmos que já na década de 1970 Booker T. & The M.G.’s desmontaram um clássico como Abbey Road, dos Beatles, e nos entregaram com algo ainda mais brilhante: seu McLemore Avenue.

Voltando ao início, nunca me interessei pela sonoridade de Ms. Swift. Mas, confesso, a curiosidade me motivou a conferir o que canadense Ryan Adams fizera ao regravar 1989, álbum mais recente da moça, e imaginar o quão estranha esta combinação seria. Na verdade, fui surpreendido…

A surpresa foi por perceber que aquele disco que sequer escutara na voz de sua dona – exceção das onipresentes Shake It OffBad Blood – me parecera algo especial.

 

 

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Cinema, Crítica

A Bruxa não é somente um filme de terror, mas uma indicação para o futuro do gênero

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Há o pecado. Antes dele, o pecado original e a noção de que todos os que creem carregam as marcas deixadas nos primeiros que com ele se viram marcados. A Bruxa, filme de Robert Eggers, é sobre homens pecadores e os descaminhos que estes tomam buscando negar, ignorar, contornar ou, não raro, aceitar seus pecados. Não, não é tão somente um filme de terror – está até distante disso -, mas, antes um filme sobre o temor…

Tudo começa quando uma família de puritanos é excomungada da comunidade onde vive em algum momento da colonização da América do Norte no Século , a esta só resta aceitar seu destino e seguir seu caminho em busca de seu próprio lugar naquele reino selvagem.

Assim, o patriarca William e sua mulher Katherine levam seus filhos Thomasin, Caleb, os gêmeos Mercy e Jonas e o pequeno Samuel para algum lugar onde possam construir seu paraíso. Mas este paraíso está maculado. Não pela bruxa que se esconde em um casebre na floresta, mas, sim, por aqueles que compartilham aquele pequeno pedaço de terra.

Os primeiros minutos que mostram as orações de Thomasin, a jovem que pede perdão por seus pecados, por sua arrogância, por seus desejos, é apenas o aperitivo do desenrolar de eventos que começam com o sequestro do bebê Samuel – arrastado pela Bruxa até seu esconderijo e sacrificado por ela.

A presença do mal se torna a preocupação da família: o mal escondido, sorrateiro e sombrio que habita a floresta os assusta, mas aquele que carregam individualmente, bem, este se desenrola e ganha as telas enquanto a tensão em A Bruxa torna-se mais e mais densa – até o ponto que temos a impressão de poder rasgá-la com os dedos.

Poster de "A Bruxa" de Robert Eggers.

Poster de “A Bruxa” de Robert Eggers.

Quando descobrimos as mentiras de William, os desejos de Caleb pela beleza que aflora de Thomasin, da insolência dos gêmeos e da arrogância da matriarca Katherine, estamos diante dos pecados silenciosos de cada um daqueles. O mal os envolve e este explodirá em algum momento.

O diretor Robert Eggers foi particularmente feliz em criar esta pequena alegoria do mal e de como este cobra seu preço. Elementos como roteiro, fotografia e direção de arte nos conduzem através desta jornada à perdição completa e ver esta família derrotada é a grande lição que A Bruxa nos entrega: a derrota como resultado da hipocrisia, da falta de apreço, da negação do mal, me parece o que norteia o longa de Eggers.

Para além, A Bruxa certamente motivará as mais acaloradas discussões, mas, sem medo de cometer um equivoco, posso afirmar que o filme ingressará entre aqueles de seu gênero: do horror calcado nas componentes psicológicas mais profundas, mesmo que o inusitado, o sobrenatural, o indizível esteja lá à espreita.

O diabo, como sempre, está no detalhes e em A Bruxa persistem os detalhes que tornam-no um dos melhores longas de suspense/horror já produzidos.

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