Comics, Crítica

Miracleman briga de igual para igual com Watchmen… Aceitem!

rszmiracleman1yuvariantjpg-b341b1_1280w

 

O título é uma provocação. Mas depois de ler o último volume da fase Alan Moore à frente de Miracleman – milagrosamente publicada pela Panini Comics no Brasil -, a provocação fará sentido…

Não tenho dúvidas de que, sim, a colaboração de Moore em Miracleman pode ficar anotada como uma daquelas obras-primas jamais produzidas para as Histórias de Quadrinhos.

Uma obra-prima que alimenta e é percebida através dos ecos, de sua reverberação através de outras obras igualmente únicas de Moore. A voz que alimenta a narrativa de Miracleman ao longo dos três arcos canônicos – Sonho de VoarA Síndrome do Rei Vermelho Olimpo – de Alan Moore se mostra presente em momentos tão diferentes quanto próximos: WatchmenA Saga do Monstro do Pântano ou mesmo uma série interrompida em seu nascedouro como Big Numbers trazem elementos que podemos atribuir à experimentação que alimenta Miracleman.

Capa de Miracleman #15, publicada no Brasil pela Panini Comics

Capa de Miracleman #15, publicada no Brasil pela Panini Comics

Os três arcos de Alan Moore à frente do personagem resultam de uma revolução: o personagem criado por Mick Anglo na década de 1950 foi uma saída para um imbróglio internacional quando a DC Comics decidiu deixar de publicar histórias do Capitão Marvel no Reino Unido complicando a vida da L.Miller & Sons LTD. Miracleman foi então uma alternativa para que o público britânico continuasse, se não com Capitão Marvel, com um equivalente – e este foi publicado entre 1954 e 1959 pela editora com relativo sucesso.

A revista Warrior, da Quality Comics, decidiu reviver o personagem e pediu a Alan Moore para assumir o título. O que temos a partir daí é algo sem paralelo…

Uma revolução pode ser o termo ideal para definir este mesmo algo porque Moore não só toma para si a criação de Mick Anglo, mas a transforma em algo ampliado, grandioso: o que antes era uma versão ainda mais caricata do Capitão Marvel da DC Comics, se transforma em algo descomunal; se torna uma força da natureza.

Miracleman de Moore é, mais  que um personagem colorido de uma HQ, um experimento filosófico: o catalisador das diferentes inquietações que o próprio autor desenvolverá até ali no auge daqueles anos de Margareth Tatcher, tempo de desrespeitos ao meio ambiente e à vida… Um período que exigia uma perspectiva acerca do super-humano e o que este significaria naqueles tempos.

Por isso a fragilidade de Michael Moran e a urgência quando do ressurgimento do Miracleman depois que a palavra-chave “Kimota” fora pronunciada no primeiro arco desta fase. Mike Moran sai de cena para a chegada do super-homem, do übermensch ali representado e do que este espera para aquele mundo onde despertara.

Miracleman #1Alan Moore nos mostra uma de suas criações mais humanas mesmo que, ela, Miracleman, não o seja ou que, mesmo o sendo, a negue ao longo da trama, já que, durante os dezesseis números da saga vemos um ser humano abrindo espaço e morrendo para dar e ceder lugar a algo além.

Assim, tanto quanto em outras criações de Moore, é a chegada do novo que importa em Miracleman. O mesmo novo que, em Watchmen, era a busca por um fim das hostilidades belicosas de uma Guerra Fria fora de controle ou que, em A Saga do Monstro do Pântano, estava na descoberta de uma realidade conectada a um ser/deidade maior que a realidade.

Moore trabalhou por duas vezes com outro uma representação do übermensch nas HQs: com o Superman criou aquelas que são consideradas histórias definitivas do personagem. Porém, diferentemente do que acontece em Miracleman, Moore não invadira com suas idéias as perspectivas filosóficas que impregnam o superhumano. Este, por sua vez, é o mote de sua recriação em Miracleman

A alegoria de Moore ao recriar o personagem de Anglo, antes de tudo, procura refletir sobre o impacto do superhumano em uma hipótese frente ao mundo real – algo que o próprio Moore chegaria a experimentar posteriormente. Mas não só: do quão revolucionária esta presença seria à humanidade e quais saltos estas teria que dar para seguir.

Miracleman de Alan Moore finalmente foi publicado em sua totalidade por aqui. Mais uma vez, comprovamos o gênio do bruxo. A seguir, vejamos como a história criada pelo “Autor Original” – como o próprio Moore pediu para ser creditado nesta reedição da série, uma vez que ainda está às favas com a indústria das HQs – seguirá seu curso com Gaiman e outros.

O que posso dizer é que a série foi um daqueles achados indispensáveis e que me sinto feliz por poder ler mais essa obra-prima.

Padrão
Política

Luto é verbo, meus amigos. E a Democracia vale a luta…

Luto é Verbo!

Desconstrução, Desmonte, Dilapidação. Estes serão os termos daqui por diante. Com a saída de Dilma Rousseff da presidência através do “golpe constitucional” referendado neste dia 12 de maio pelo Senado brasileiro, o que vem a seguir é de todo previsível. As pistas estão dadas através dos noticiários e das páginas dos jornais e revistas: a primeira fase, a da desconstrução, deve iniciar-se imediatamente.

Para tanto, todas as “mazelas” das gestões petistas serão lançadas aos cães. Não importarão os avanços no Social e na inclusão, mas, antes, como forma de agrado ao mercado e à turba de beócios que espumavam – e espumam – pelo golpe, interessa demonstrar que as escolhas petistas fizeram a “máquina pública crescer demasiadamente”, que o governo interino de Temer deverá “cortar a própria carne” para “reduzir o tamanho do estado” e que a população em geral “deverá estar preparada para o sacrifício”. Este é o discurso para o mercado: para este, a desconstrução é urgente e imprescindível…

Teremos o desmonte. As conquistas das gestões petistas, após a descontrução, deverão ser desmontadas. O projeto Ponte para o Futuro do PMDB do interino Michel Temer descreve bem este caminho com sugestões para “privatizar tudo o que for possível”. A privatização é apenas um momento, antes, urgente para os interesses do mercado e da Casa Grande, é necessário desmontar: é no desmonte que conquistas como os institutos federais de educação tecnológica e as universidades públicas federais passarão por seus momentos mais difíceis.

O discurso será que esta estrutura não deve ser responsabilidade do Estado, mas, sim, do mercado: a iniciativa privada terá que assumir tal e, portanto, nega-se o direito à educação previsto constitucionalmente. O desmonte também passará pelos programas sociais, especialmente o Bolsa Família – que, como dito por alguns, deve ter seu espectro reduzido e atingir apenas 5% da população pobre do país. O desmonte nega a inclusão, o resgate. Ele, o desmonte, passa pelas empresas públicas também.

Esta é a etapa seguinte, a dilapidação. Não é de admirar que o foco seja a Petrobras. Mas, antes, as reservas do pré-sal. Não apenas: com a ascensão de Temer, tudo passa a ser mercadoria em um grande balcão de negócios. Não à toa, a grita do senador e agora ministro das Relações Exteriores, José Serra, mais encorpado e capaz de negociar lá fora o produto do desmonte. Na dilapidação, como na década de 1990, vão-se o que se pôde produzir no país, não só sua matéria-prima, mas a infraestrutura desenvolvida/recuperada pelas gestões petistas.

Assim, o momento não é de um governo fruto de conspirações e um golpe que chega ao poder, mas a derrota de uma Democracia que durante pouco respirou algo para os seus. O Brasil envereda novamente pelo caminho que a Casa Grande escolheu: não pelo voto dos seus, mas pela força daqueles que, derrotados e inconformados com a distância do poder, cresciam seus dentes para abocanhar a botija. Bem vindos a um outro país. Não o tal “país do futuro”, mas um acostumado a “repetir o passado”.

A nós, resta tão somente resistir. Sempre.

Luto é verbo, meus amigos. E a Democracia vale a luta…

Padrão
Política

A Democracia voltará, mas, antes, desce o pano e ela sai de cena…

Gosto de imaginar que isso que ora acomete nossa jovem democracia vai passar. Mas, de volta à realidade, pego pelas sempre tenebrosas transações dos nossos, sei que não é por aí…

O que hoje se desenrola no Senado da República, depois do espetáculo patético protagonizado na Câmara dos Deputados, é o fim da democracia. Não há outra maneira de dizê-lo. Nossa jovem democracia foi pega na esquina da realidade e neste exato momento é violentada enquanto nós, atônitos, apenas reclamamos uns dos outros.

Vai passar? Talvez. Provavelmente, não. Não porque sequer aprendemos o valor que tem o voto: e a prova disso é que, como eu, certamente você deve ter escutado alguém reduzindo a importância do ato de votar. O voto que, sabido, representa o que temos de mais valioso em tempos negros: a capacidade de decidir nossos caminhos.

Assim, o que mais me ofende nesta que tenho definido como uma “ópera bufa patética protagonizada por atores da mais baixa envergadura” é a percepção de que através de tal arranjo o voto, sempre ele, mais uma vez é ignorado.

Não me engano em pensar que nossos deputados e senadores têm em mente a percepção de que estão “corrigindo” aquela decisão tomada por 54 milhões de brasileiros que elegeu Dilma Rousseff: corrigem aqueles que consideram inaptos, ignorantes, infelizes, ingratos e outras visões que a Casa Grande insiste em pregar.

Amanheci hoje em uma democracia definhando, atraiçoada, vitimada por aquilo de pior produzimos desde muito. Uma democracia traída novamente pelos vermes de sempre.

Confesso que escrevo com um ódio dilacerante que golpeia incessantemente meu espirito; um ódio inexplicável por um povo que sequer sabe o valor que a Democracia detém; um ódio pela apatia e esta tal “cordialidade” que entorpece os sentidos e a noção de urgência de nosso povo – não aquele que veste verde e amarelo, mas os que se aglomeram nas periferias.

A Democracia brasileira vai dormir hoje. Como disse Chico, “sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”…

Mas, como o mesmo Chico Buarque disse certa vez, amanhã vai ser outro dia e os galos cantarão novamente: um após outro e, desse cantar, ela, a Democracia, voltará a brilhar e saberá afastar aqueles que a golpearam neste dia.

Padrão
Comics

Tudo morre. Nos quadrinhos, sempre; nas telas, não será diferente…

Painel de Secret Wars da Marvel Comics

Assisti há alguns dias a Capitão América: Guerra Civil. O novo filme do universo cinemático da Marvel Studios me surpreendeu, confesso, por mostrar-se uma das crias mais coesas desta nova leva de filmes e séries calcados no universo narrativo da Marvel Comics.

Entretanto, algo me chamou a atenção neste último filme – e também na segunda temporada de Demolidor: uma sutil e por vezes imperceptível escalada para o fim. Não o fim de toda a narrativa, mas as portas para uma escalada de conflitos que levará certamente à morte de alguns personagens.

Não, não é algo raro nos quadrinhos. Se levarmos em conta que a Marvel Comics liquidou de uma vez vários de seus “universos” ficcionais recentemente – procurem pelo arco “Tudo Morre” dos Novos Vingadores e vocês entenderão ou, mais ao final, no arco “O Tempo Se Esgota”, prelúdio para as novas Guerras Secretas -, nas telas a dinâmica aparentemente segue na mesma direção.

Há uma atmosfera de conflito iniciada com a tal Guerra Civil e que se desenvolverá mais e mais nos próximos filmes da franquia Vingadores, disso eu não tenho dúvidas. No entanto, resta saber quais cairão até lá. Tenho algumas apostas, mas, bem, prefiro não opinar até confirmar minha teoria…

A questão é bem simples, no entanto: o universo cinemático da Marvel Studios está se expandindo muito rapidamente e as diferentes frentes narrativas e seus personagens parecem culminar para algo grandioso. Conhecendo bem a editora, não seria estranho que em tal processo de expansão alguns personagens terminassem fora do caminho. Vejam bem: não os mais emblemáticos, mas aqueles que estão à margem e, em algum caso especial, algum grande para dar uma “engrenada” no drama…

A verdade, creio, é que a temporada mortífera para alguns personagens deste tal universo cinemático poderá começar com a estréia da primeira parte Vingadores: Guerra Infinita, em maio de 2018: de longe o primeiro grande evento que a Marvel Studios pretende levar a cabo.

A partir daí, creio, será uma sucessão de grandes eventos e produções em diferentes meios que culminarão em uma grande e espetacular catarse. Uma catarse que, é certo, desagradará muitos fãs deste universo audiovisual elaborado pela Marvel, mas que, algo relativamente comum aos que acompanham as Histórias em Quadrinhos, não causará tanta surpresa entre os que conhecem algo do universo impresso da editora.

Não é que seja uma surpresa, mas o universo cinemático da Marvel Studios é apenas mais um. Tudo o que acontece nele, bem, está distante daqueles desenvolvidos em outros meios. A morte, neste contexto, é também renovação. Vejamos até quando a Marvel Studios seguirá até que tudo morra.

Padrão
Artigos, Música

Regravando, refazendo…

Nunca escutei a Taylor Swift. Não por nada, mas ela não é o tipo de musa pop que me chama a atenção. Em algum momento a Madonna fez isso; nos anos 1990-2000, a Britney Spears também. Mas, mais que elas, a maneira como alguns grupos que admiro se apropriaram das canções destas musas me levaram a perceber algo além.

Versões como Like a Virgin ou Baby, One More Time, pelos escoceses do Teenage Fanclub e Travis, ou mesmo a desconstrução que os moços do Sonic Youth promoveram ao (sub)verter o clássico Into The Groove de Madonna ou Superstar dos Carpenters, me permitiram atentar para este flerte entre o pop e as diferentes variantes do rock’n’roll. Não tenho nada contra covers, mas, pela profusão de discos dedicados às releituras de outros artistas, vivemos um momento interessante…

Experiências como aquelas protagonizadas pelo Flaming Lips – com releituras de clássicos como The Dark Side of The Moon ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – ou mesmo outras ainda mais inspiradas como o The Walkmen decidira regravar o álbum Pussy Cats de Harry Nilsson, para ficar em exemplos recentes, não são novidade, se considerarmos que já na década de 1970 Booker T. & The M.G.’s desmontaram um clássico como Abbey Road, dos Beatles, e nos entregaram com algo ainda mais brilhante: seu McLemore Avenue.

Voltando ao início, nunca me interessei pela sonoridade de Ms. Swift. Mas, confesso, a curiosidade me motivou a conferir o que canadense Ryan Adams fizera ao regravar 1989, álbum mais recente da moça, e imaginar o quão estranha esta combinação seria. Na verdade, fui surpreendido…

A surpresa foi por perceber que aquele disco que sequer escutara na voz de sua dona – exceção das onipresentes Shake It OffBad Blood – me parecera algo especial.

 

 

Padrão