Crítica, Música

O Lamento de Dylan Sobre os Dias Que Se Vão…

By the time I got to New York
I was living like a king
There I’d used up all my money
I was looking for your ass
This way or no way
You know, I’ll be free
Just like that bluebird

O trecho acima é de Lazarus, canção que está naquele disco que pode ser considerado a melhor acabada despedida de David Bowie: Blackstar. O disco foi lançado quando Bowie completou 69 anos e, dois dias após seu lançamento, ele deixaria a existência. A canção é sobre esta despedida e, para além desta faixa, tudo está lá em Blackstar: o apelo à vida, a busca por redenção e a certeza de que os dias estão terminando. Não é um disco fácil, mas é o testamento de Bowie.

Por que diabos escrevo sobre Bowie quando quero falar de Bob Dylan e seu trabalho mais recente? Porque “Rough And Rowdy Ways”, novo trabalho de Dylan após oito anos desde o disco anterior, “Tempest”, de 2012, envereda por caminho semelhante àquele traçado pelo Blackstar de Bowie: um acerto de contas com o passado enquanto se tem tempo para tal, mas também uma prece para os dias e caminhos difíceis ainda a trilhar a partir daqui.

I Contain Multitudes”, canção que abre o disco, entrega já nos seus primeiros versos a reflexão sobre como tem sido existir nesses dias e como um dos maiores poetas de nossos tempos tem lidado com a inevitabilidade e como esta urge em um dialogo com sua poesia:

I have no apologies to make
Everything’s flowing all at the same time
I live on the boulevard of crime
I drive fast cars, and I eat fast foods
I contain multitudes

É nessa mesma canção que Dylan busca por Poe e Blake: os fundamentos de sua reflexão, de sua lírica em torno do fim à espreita em suas mais diferentes manifestações e, com isso, nos diz que, apesar de já em conta, ainda há histórias a contar, reflexões a fazer e perspectivas a desnudar enquanto os dias não findam…

Rough And Rowdy Ways
Capa de “Rough And Rowdy Ways” de Bob Dylan.

Dylan alfineta com a afirmação que não é “nenhum falso profeta: apenas sabe o que sabe e diz o que precisa ser dito” em “False Profet”, segunda faixa do disco. Nela, Dylan lança ainda mais lenha nesta estranha fogueira que o cantor acende para refletir sobre si, seu lugar neste mundo revolto e o quão resignado está ao não mais poder/querer intervir em seus rumos.

Lembremos do jovem Bob Dylan, das canções de protesto, das canções sobre amor, guerra, fé, tristezas e alegrias; lembremos do Dylan que movia multidões em torno de sua presença e que desenhou parte da paisagem cultural do Século XX. Bem, é este Dylan que se apresenta para nos lembrar que tudo o que dissera ao longo das décadas de sua travessia, mais que fazê-lo orgulhoso de seu legado, parece o amargurar.

Black Rider”, quinta faixa do álbum, parece aprofundar ainda mais o que Dylan pensa sobre seus dias neste mundo:

Black rider, black rider, all dressed in black
I’m walking away, you try to make me look back
My heart is at rest, I’d like to keep it that way
I don’t wanna fight, at least not today
Go home to your wife, stop visiting mine
One of these days I’ll forget to be kind
”.

A canção mais parece uma conversa entre conhecidos, parceiros, entre indivíduos que nunca deixaram de se encontrar. Este é um ponto interessante desta faixa: aquele com quem Dylan dialoga mais parece um mensageiro que o obriga a rememorar seu passado e é uma das minhas canções favoritas deste disco.

Rough And Rowdy Ways” não é um disco fácil e não agradará a todos, mas é certo que despertará bastante atenção por tudo o que Dylan destila em suas dez faixas. Quando sugiro parágrafos acima a comparação entre este disco e o “Blackstar” de Bowie esta se dá devido a toda carga pessoal, íntima, que Dylan imprime.

Desafio qualquer um a resistir e permanece impassível aos 17 minutos de “Murder Most Foul” e não apenas à narrativa de Bob Dylan para a morte de John F. Kennedy, mas ao percurso que ele faz pela década de 1960 e seus diferentes heróis e fontes de inspiração.

Rough And Rowdy Ways” é um acerto de contas de um poeta com sua história e arte. Não, novamente, um acaso que Poe e Blake estejam lá: Dylan homenageia seus amigos e heróis porque sabe que deixa sua marca na história e cultura; Dylan sabe que será eterno.

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