Cinema, Crítica

O Coringa e seu inegável Eterno Retorno…

Vejam… Durante muito, o Coringa de Alan Moore para A Piada Mortal, considerado por muitos a HQ definitiva acerca da relação do personagem com o Batman. O conto de Moore é uma história de fundação para o personagem e se juntava a várias outras leituras que estabeleciam o personagem como o vilão definitivo, a contraparte tanto de Bruce Wayne e do próprio Batman: uma força incontrolável – e que ao mesmo tempo levantava dúvidas sobre a capacidade do cruzado embuçado de derrotá-lo.

Nas telas, o Coringa ganhou algumas leituras…

Na TV, César Romero e sua caricatura insana para o personagem na série do Batman da década de 1960 foi fundamental para o estabelecimento de uma lógica particular: a do palhaço alucinado e, mesmo louco, capaz de tirar gargalhadas por suas tiradas. Aquela era a lógica e esta dialogava com as HQs – estas reprimidas por um código de conduta que restringia os limites do personagem.

Mas tal código de conduta perderia o sentido com o fim dos anos 1970 e a renovação que se seguira com os anos 1980-1990…

É a partir daí que a imagem do Coringa começa a ser dissecada/construída em diferentes aventuras – desde A Piada Mortal (1988), de Alan Moore e Brian Bolland, passando por Morte em Família (1988-1989), de Jim Starlin e Jim Aparo, e chegando a Asilo Arkham (1989), de Grant Morrison e Dave McKean – que de certa maneira estabeleceram as fundações do personagem no período pós-Crise nas Infinitas Terras e estas se estabeleceram como que alinhadas com as premissas distópicas estabelecidas por Frank Miller para o Batman e seu principal adversário em O Cavaleiro das Trevas (1986).

É nesta transição pós-Crise que o Coringa assume suas facetas mais assustadoras e emerge como uma força dona de uma identidade multifacetada e, ao mesmo tempo, cativante – não sendo por acaso que o personagem dispute o coração dos fãs do Batman como uma de suas forças primordiais (algo que desagua de certa forma na visão proposta para o personagem por Scott Snyder em Morte da Família, arco de 2012 em que o Coringa ataca toda a bat-família buscando destroçá-la.

Algo que fica claro ao longo das décadas de aventuras do Batman contra seu maior inimigo é que ele, o Coringa, sempre volta. Seja caindo de um helicóptero, baleado fatalmente, preso no Arkham, desaparecendo nas águas ao redor de Gotham ou qualquer outro evento que o tire de cena, é certo que ele retornará para mais um embate.

Podemos dizer que o Coringa nas telas lida com a mesma dinâmica: um eterno retorno, como se cada uma de suas encarnações nas telas funcionasse como elementos em constante complementação/expansão: a loucura niilista do personagem em um filme se recombina com a resistência ao real e seus atores em outro. O Coringa sempre retorna em busca de uma nova chance.

Este me parece o ponto deste novo filme. O Coringa que lá está interpretado de modo brilhante por Joaquin Phoenix é impecável, mas distinto daquele de Heath Ledger ou o de Jack Nicholson: aqueles são outros Coringas que alimentam e emprestam algo a este último; outros Coringas, cada qual com suas peculiaridades, atribuindo sentidos ao mesmo sujeito.

O Coringa de Joaquin Phoenix não é menos potência que aquele de Heath Ledger ou Jack Nicholson: cada um desses intérpretes contribuíram para uma identidade fílmica do personagem. Porém, a interpretação de Phoenix para o longa de Todd Phillips lida com outros demônios: a gênese de Arthur Fleck no grande vilão que é o Coringa é um mergulho na psiquê de alguém que adoece ante o mundo, o real e este adoecer o faz implodir.

Fleck cai e ao levantar-se o faz como o Coringa. O personagem levanta tanto como ofensa quanto ofendido e quer a desforra. O enlouquecer de Fleck, demonstrado em diferentes cenas e que culmina com a gênese do Coringa, guarda profundas semelhanças com aquele do protótipo de gangster sem-nome que mergulha em uma piscina de reagentes químicos para escapar do Batman em A Piada Mortal de Alan Moore: temos uma dinâmica semelhante que nos envolve no adoecer de ambas as versões de um mesmo sujeito.

Por isso que a versão de Ledger é a de outra faceta para o mesmo palhaço; por isso que a de Nicholson dialoga com outra face do mesmo personagem – aquela espalhafatosa e cômica dos anos 1960 de modo mais evidente. O Coringa de Phoenix e Phillips nos apresentara uma grande história de fundação que nunca fora contada até aqui – seja nas telas ou nos quadrinhos.

O grande mérito deste Coringa de Phonix é que a tela ficou pequena para a explosão de emoções que nos envolve, forçando-nos a discutir o quão grandiosas foram diferentes personificações de um mesmo papel. Esta não é uma versão definitiva para o personagem, mas seu recomeço que recolhe elementos de todos que vieram antes dele.

Este é mais um dos muitos retornos de um vilão à espera de seu nemesis… Um retorno triunfal e peculiar; um sério retorno em um sério mundo, diga-se.

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